A Imagem do Som foi ao “Cave 45” ver e ouvir os AFFAIR e os THE BAND OF HOLY JOY

Na sexta feira e sábado, 03 e 04 de novembro de 2017, o “Sabotage Club” de Lisboa, e o “Cave 45” do Porto, acolheram os QUIET AFFAIR e os THE BAND OF HOLY JOY, a convite do promotor “Ilha dos Flamingos”.

Confirmou a vocação dos portuenses e londrinos para espaços intimistas e públicos avessos à massificação, e descobriu cumplicidades insuspeitadas entre o som de uns e outros.

Os QUIET AFFAIR vieram apresentar os temas “Generation Gap”, “Ok” e “Bad Robot”, gravados ao longo deste ano, e que serão brevemente lançados no circuito comercial. Apresentaram-se com a serenidade de quem está em casa: no conforto da casa deles, e na serenidade da casa de cada um de nós. O João Ricardo a manejar a guitarra com uma segurança e que faz duvidar onde termina o corpo humano e começa o instrumento musical, ou se porventura ambos se terão fundido entre cordas e os pedais. O Daniel Tércio a abordar a bateria como um polvo multitentacular cujos movimentos parecem impossíveis de seguir, a driblar baquetas e sorrisos em sincronismo absoluto. O Álvaro Pilar a dar o seu melhor na resposta ao convite da banda para segurar um baixo que não é fácil na sonoridade do projeto. O João Pedro Gama a abraçar a guitarra com a voz, e a levitar a audiência por temas antigos embebidos em timbres novos, marcados pelo estado de espírito do momento.

Abriram com “Over & Over”, “What Took You So Long”, Saturday e Fly”, a captar a sensibilidade de quem já conhecia e de quem ouvia pela primeira vez os icónicos paradoxos de amor e desamor. Seguiu-se Memories”, que beneficiou de um upgrade instrumental cuja intensidade ecoou por todo o público. O Vasco da Gama foi chamado ao palco para estrear “Generation Gap” em dueto com o pai, numa demonstração de que a linhagem e talento têm um elo de continuidade genética. Ok susteve a respiração da sala ao longo daquela que talvez seja a mais bela melodia do projeto. Para finalizar, “Sin City” e Monkey” encheram todos os cantos com as suas criticas sociais acutilantes, e “Bad Robot” assegurou o momento apoteótico do repertório. O publico queria mais, mas os QUIET AFFAIR cederam generosamente o altar, e juntaram-se ao público para comungar da banda seguinte.

Os THE BAND OF HOLY JOY vieram divulgar o álbum e EP lançados este ano”: Funambulist We Love You” e “Brutalism Beguins at Home”. O quinteto é uma tribo cujos laços de cumplicidade são tão visíveis que quase brilham no escuro. A secção rítmica está a cargo de Mark Beazley no baixo e Steve Hands na bateria, que tocam como se fossem um só, em uníssonos e dissonâncias milimétricas. James Stephen Finn, apoia-se sobre umas sapatilhas amarelas que constituem o único elemento de cor no palco, e não vacila na guitarra. Peter Smith faz a sua magia com uma panóplia de mini sintetizadores, que fornecem filtros e loops. O carisma de Johny Brown é incontornável, materializado na sua figura imponente e na linguagem corporal com que mimetiza as letras da sua autoria, num registo entre o canto, a declamação e a arte de contar histórias.

Concentraram-se nos temas recém lançados: “A Revivalist Impulse”, A Lonesome Dove”, A Beautiful Cat”, “A Connecting Ticket” e “Come Home to Me” foram muito bem recebidos pelo publico, e confirmam que o projeto está em grande forma, numa marcha para diante sem risco de se perder da essência que o define. Intercalaram-nos com o som alegre e otimista de combate à austeridade thatcheriana dos anos 80 de “Aspidista House”, “Don’t Stick Knives on Babies Heads”´e “Who Snached the Baby”. Para deleite da audiência percorreram ainda “I have Travelled the buses late at night” e “Open the door to Your heart”, e puseram e a sala a entoar o hino “The Land of Holy Joy”. Prestaram tributo a Vincent Gallo com uma versão muito bem conseguida de “So Sad”. Fecharam a primeira parte com a belissima “The Song of Casual Indiference”, e concluíram o encore com o tema que empresta o título ao ultimo álbum, “Funambulist We love You”.

Os QUIET AFFAIR e os THE BAND OF HOLY JOY rasgaram as etiquetas redutoras do indie folk, e expuseram a música tal como ela é: um sortilégio que mistura emoções causa comoções.

Texto: Ana Cristina Carqueja Foto: Igor de Aboim Galeria: