O frio que se entranhava nos corpos à espera de entrar no Pavilhão Multiusos de Guimarães já deixava prever que ia ser uma noite reconfortante na companhia de Tom Jobim pela voz de Carminho.

A voz de Fernanda Montenegro marcou o início de um concerto com “Sabiá”, onde uma casa quase esgotada era partilhada com o intuito de se respirar bossa nova. Carminho esboçava sorrisos que cativavam o público até proferir “É uma honra estar a cantar Tom Jobim, estar ao lado destes músicos, destes senhores, destes artistas que me fazem aprender e crescer todos os dias um bocadinho mais.” Acompanhada por um quarteto supremo, onde a amizade e o carinho entre Portugal e Brasil eram sentidos, rodeada por músicos como Paulo Jobim (guitarra), Daniel Jobim (piano), Jaques Morelembaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Não se tratava de nenhuma “Inútil Paisagem” enquanto o público permanecia de olhos vidrados na figura esbelta de Carminho, vestida de preto, onde o palco se misturava nos diversos tons de azul. Os acordes de uma bossa nova traduzida por “Wave”, onde o “fundamental é mesmo o amor” e que se fazia balançar interiormente por cada indivíduo que permanecia na plateia. E por ser “impossível ser feliz sozinho” enquanto a noite se envolvia em temas como “Meditação” e “Falando de Amor”, eis que o fado decidiu dar um ar de sua graça através de “Meu Amor Marinheiro” e “Escrevi Teu Nome no Vento”. “Eu não poderia fazer este disco sozinha nunca na vida, primeiro sem eles mas também com pessoas que foram construindo a minha ideia, esse Tom Jobim... e uma delas traz-me o Tom Jobim não só pelo seu gosto pela natureza, pela sua frescura porque este Tom Jobim é assim fresco e gosta de pássaros como também pela amizade que se criou entre nós, pelo grande amor que juntamos à música, pela empatia,
pelo talento, tenho o maior prazer, o maior orgulho e a grande honra de chamar ao palco Marisa Monte!” De mãos dadas numa sintonia profunda ouviam-se os primeiros acordes de “Estrada do Sol”, seguido de “Chuva no Mar”, “Vilarejo” e “Peixinhos”. Quem teve a sorte de lá estar, presenciou um dos momentos mais sublimes deste Outono que mais parece Inverno, e de tantos arrepios que de nada tinha a ver com o tempo, mas que eram abraçados pela partilha daquela noite entre duas almas que conseguiam cativar o público por cada palavra cantarolada em perfeita harmonia. Enquanto Marisa Monte deixava o palco, Carminho falava de como a escolha do repertório foi engraçada e de quanto ela odiou quando ouviu pela primeira vez a canção “Retrato a Branco e Preto” – “ela era tão intensa, não sei o que era, talvez qualquer coisa que me atormentava que eu não conseguia ouvir, depois comecei a crescer, a aprender alguma coisa sobre a vida e obviamente comecei a gostar desta canção...”. “Triste é viver na solidão...” como diria a canção, transportava o fim do concerto deixando reinar a ovação em pé perante a fadista. E como forma de suprir a tristeza de um final, Carminho decidiu oferecer um encore que se tornou num perfeito aconchego à capella entre si e o quarteto. Regressando ao palco momentos depois Marisa Monte para cessar esta noite bem-aventurada numa simbiose perfeita que Guimarães outra hora já viu acontecer.