#Confissões de um Suspeito – Vol. 16

SUSPEITO MIGUEL ORTIGÃO
A vida sem música ( e recordações) seria um erro.

Só os audazes, os pacientes e os grandes apaixonados pela música é que tinham a coragem de tentar gravar em cassete uma música que ouviam na rádio. As interrupções do locutor quando a apresentava, ou quando introduzia a seguinte, eram quebra cabeças para a gravação da cassete perfeita de qualquer aventureiro.

Eu tentei várias vezes, mas desisti tão rápido como comecei. Tínhamos que estar sempre a postos, desde que começava a emissão do programa colocando a cassete dentro do deck e premindo as teclas “play + rec” e “pause”. Ao mínimo sinal de que a tal música que gostávamos iria começar a tocar, esperávamos que o locutor fizesse as apresentações, o que era incerto – às vezes no inicio e outras vezes no fim – e desbloqueávamos a tecla “pause” para começar a gravar. Se tínhamos a sorte de conseguir um registo, no mínimo satisfatório, ajustávamos a cassete ao fim da última gravação, preparávamo-nos para gravar a seguinte. E, assim, íamos coleccionando algumas músicas de que gostávamos nas nossas cassetes de 60 e 90 minutos BASF e MAXELL. As minhas acabavam sempre por ser um manto de retalhos, uma colagem de músicas incompletas, o que me desmotivou a perseguir essa aventura.

Com o aparecimento, a 8 de Janeiro de 1985, do programa “A COR DAS ONDAS DA FRENTE” da Rádio Renascença (com a qualidade FM estéreo da rede nacional), aos sábados das 17 às 18 horas, surgiu a oportunidade de conseguir a gravação de uma cassete de 60 minutos sem cortes.

O programa anunciava uma hora seguida de música sem interrupções, intitulada “som da frente”. O desafio para conseguir uma cassete decente não era grande: bastava esperar pela hora e, após o genérico do programa, pôr a cassete a gravar sem preocupações durante os primeiros 30 minutos. Nessa altura terminava a duração do lado “A”, e havia que pôr rapidamente a cassete a gravar no lado “B” durante outros 30 minutos. Ao todo foram 22 emissões. A última no dia 8 de Junho de 1985. E, na terça feira a seguir a cada programa , “A COR DAS ONDAS DA FRENTE” publicava o alinhamento das músicas (com excepção das emissões 20 a 22) nas páginas 3 ou 4 do jornal Blitz.

Consegui gravar algumas emissões, sacrificando tardes de sábado da minha juventude com os amigos, porque a paixão pela música já era grande. Como homenagem e agradecimento ao programa, seleccionei uma música de cada uma das 19 edições e criei uma playlist no Spotify, que agora partilho.

A vida sem música ( e recordações) seria um erro.

Miguel Ortigão

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