Glasvegas, “Godspeed”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
São composições num tom grandioso, com ecos dos anos 80, quer das zonas mais sombrias do post-punk, quer das mais solarengas da pop.

Os Glasvegas começaram em grande, com o álbum homónimo, onde estavam os hits “Geraldine” e “Daddy’s Gone”. Apregoados como “the next big thing”, os escoceses demoraram três anos para apresentar sucessor: “Euphoric Outbreak, um balão a quem tinha escapado o ar. Em 2013 apareceu o que era, até agora, o seu último disco, “Later…When the TV Turns to Static” que confirmava a impressão deixada pelo álbum anterior, a duma banda sem norte estético.

Glasvegas | “Godspeed” | 2021

Eis que, em 2021, lá das highlands escocesas descende “Godspeed”. A capa é claramente inspirada no primeiro álbum de Elvis Presley, onde o Rei interpretava uma série de covers, desde logo, “Blue Suede Shoes”. Mas os Glavesgas não foram os primeiros a ir até Memphis à procura de inspiração, sendo a versão mais conhecida dessa capa a de “London Calling”, dos The Clash. 

Quanto ao conteúdo, todo ele foi escrito, gravado e produzido pelo líder da banda, James Allan que imprimiu às composições um tom grandioso, com ecos dos anos 80, quer das zonas mais sombrias do post-punk, quer das mais solarengas da pop. O tema que sobressai, pela estranheza, é “Shake The Cage (für Theo)”. À primeira impressão, parece que se está a escutar uma qualquer oração religiosa na Capelinha de Fátima, da forma como um coro de vozes vai pronunciando, pausada e ritmicamente, palavras atrás de palavras: “(…)Trip, Be inappropriate, Stay lit, Transmit, Commit, Be fully wrong, Rise, Bathe, Keep the faith, Explain (…)”. O Theo do título é o sobrinho de Allan e o tema foi escolhido para fazer parte da banda sonora de “Creation Stories”, o biopic de Alan McGee, responsável pela editora Creation Records, por onde passaram nomes como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine e os Felt, entre muitos outros.

Antes, “Dive” convida-nos a um mergulho na noite e nas suas crias, o álcool e os químicos, tudo ao som duma sonoridade electrónica adequadamente pesada, entrecortada por um repetitivo riff de guitarra. O post-punk marca presença em “Dying to Live”, onde se nota a presença do fantasma dos The Sisters of Mercy… Em “Keep me a Space”, “Cupid’s Dark Disco” e “In My Mirror”, o ritmo abranda, permitindo a Allan elevar a sua voz a um status próximo dum crooner pop que expõe as suas pretensões épicas. O disco termina com o tema-título, e onde se concluiu “Together we lived, together we died, Hey hey, my my, is this goodbye?”.

Não sei se este fim é meramente circunstancial ou, até, simbólico, mas é inquestionável que a banda tem aqui um segundo fôlego. Certamente que não se pode falar em novidade, mas há uma reinterpretação do passado que tem um inegável mérito. Não ficará para a história de 2021, mas também não deixa ficar mal esse alfobre de excelentes bandas que é a Escócia, e Glasgow em particular.

Pedro Brás Marques

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