2º PISO: da 14 de outubro ao Hard Club

Em 1993 na Rua 14 de Outubro formava-se o que viria a ser um dos mais importantes estúdios do rap nacional. Dia 7 de maio de 2021, 28 anos depois, foi apresentada a compilação com o mesmo nome da rua onde tudo começou "14 de outubro".
2º Piso: Da 14 de Outubro ao Hard Club

E não podia ser outro o palco senão a emblemática sala 1 do Hard Club, sala esta onde se deram alguns dos mais marcantes concertos de rap em Portugal.

Oficializado como editora a 14 de Outubro de 2020, o 2º Piso prometia ser um novo estandarte da cultura hiphop, com foco nos jovens talentos e no regresso ao sentimento de união e pertença em torno do movimento outrora visíveis. É assim que é descrito no site oficial de Mundo Segundo, fundador do 2ºPiso, que assim volta a confirmar o seu peso na cultura hiphop nacional.

Menos de um ano depois, a compilação “14 de outubro” vem confirmar isso mesmo, são 12 mc’s, na maioria jovens, que dão a voz às 16 faixas desta coletânea que viaja por diferentes estilos de rap, do trap ao boom bap, e a união entre mc’s e produtores é audível no resultado final. Os temas abordados são vários, mas há um que está sempre presente, o gosto pelo movimento.

 A capa sai das mãos de Deck97 (fotografo e designer gráfico portuense que já é “prata da casa” no que toca a parte visual dos projetos 2º Piso) e retrata o mapa da rua 14 de outubro em Vila Nova de Gaia e as suas proximidades.

Na chegada ao recinto o ambiente era calmo, mas com muita expetativa. Lá fora sentia-se o entusiasmo pelo regresso aos concertos ao vivo. No entanto, lá dento, minutos antes da entrada em palco a sala continuava muito vazia, provavelmente fruto do congestionamento rodoviário nas redondezas.

DJ Suprhyme aqueceu o público com um DJ set recheado de clássicos do hiphop enquanto na sala iam entrando cada vez mais pessoas. No backstage Mundo preparou toda a gente: o fundador do 2º Piso pediu a todos os membros que entrassem juntos e “em família”. Assim foi, e, apesar de algumas cadeiras vazias, a receção foi muito calorosa, principalmente quando Mundo entrou (em último).

De destacar também a presença de DJ Guze que acompanhou Mundo na primeira faixa do concerto, “Vício”. O veterano do hiphop e membro dos Dealema fez surgir o barulho da sala, que continuava a ver-se mais preenchida, desde o primeiro instante em que pôs a mão no prato.

Na retaguarda do palco estavam todos os membros do 2ºPiso, o ambiente de festa e a harmonia de grupo podiam sentir-se de cima do estrado até ao fundo da sala.

As participações seguiram-se umas às outras e se todos foram bem-recebidos pelo público que agora enchia quase por completo a sala 1, Rato 54 foi dos mais acarinhados da noite. O rapper portuense, muito à vontade com o público, mostrou o quão contente estava por voltar a casa com a sua música “Trincheira das Emoções” acompanhado por DJ Score.

O ambiente era, sem dúvida, de hiphop, o chão vibrava com as batidas e os braços abanavam com as rimas. As músicas seguiram-se com Mundo quase a tomar um papel de apresentador, introduzindo, muitas vezes com piadas, cada membro da sua editora que agarrava no microfone. Um autentico mestre de cerimónias, portanto.

A boa disposição de Mundo é quase tão óbvia como o seu a vontade no palco, a audiência seguia todos os movimentos e ria-se de todas as piadas.

Birro foi outra pessoa a destacar-se, com a faixa “Começar de Novo”, revelando uma forte presença de palco e uma boa energia contagiante.

E, se não soubéssemos que estávamos no coração da cidade invicta, a certeza viria quando Buster se chegou à frente ostentando uma camisola do clube azul e branco. De imediato, foi possível ouvir os gritos eufóricos dos adeptos do clube presentes na sala, com um “Porto” uivado numa só voz. Ainda durante a música de Buster, Escrutínio”, a generosidade da assistência foi marcante, quando perante uma pequena falha redobrou o seu apoio ao Mc da zona do Aleixo.

Já a chegar ao fim, surgiu “Nascido em Gaia” pela voz de Mundo Segundo e Montoya Criminal. Esta sim, aqueceu a sala, e de que maneira – o refrão ouvia-se das cadeiras e o ambiente em palco tornava-se cada vez mais fraternal.

No final chegou o abraço de família (difícil contar quantos fizeram parte do mesmo) enquanto Tuka, rapper de Viana do Castelo cantava o ultima música da noite, “Pensamento Longe”. Todos entoaram o refrão em alto e bom som, alguns até visivelmente emocionados.

Enquanto DJ Suprhyme (que esteve a maior parte do tempo encarregado da cabine DJ) se despedia do público, este abandonava a sala ao som de “Bairro”, emblemático som de Expeão. No backstage a festa continuava, entre abraços e um claro sentimento de alegria e dever cumprido. A amizade demonstrada em cima do palco é ainda maior nos bastidores, não vemos artistas, mas sim uma família unida, contente por regressar aos palcos.

Numa noite de estreias, repetentes, muitas batidas e, principalmente, muitas rimas, no final o que mais ganhou foi mesmo o hiphop, esse que é o verdadeiro tesouro desta família.

TEXTO: Tomás Taboada
FOTOS: Igor de Aboim

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