ANTÓNIO MÃO DE FERRO ao vivo na Casa da Música

A dupla percussão cria um stereo analógico, sobre o qual a guitarra de Mão de Ferro joga snooker, abrindo espaço para cada um dos instrumentos, e empurrando-o com precisão.
ANTÓNIO MÃO DE FERRO ao vivo na Casa da Música

António Mão de Ferro é um dos guitarristas portugueses mais conceituados da atualidade, com um estilo criado por ele próprio a partir dos blues, com influências pop, rock e folk. Em 2010 iniciou a carreira a solo com o álbum “Karma Train”, cantado em português, com letras de Paulo Abreu de Lima. Nos trabalhos seguintes, maioritariamente com letras de Bernardo Fesch, optou pelo inglês: Somewhere em 2015, António Mão de Ferroem 2017, e Lunatic, datado de 2020 mas só agora lançado.

Lunatic é um disco bastante eclético. Com dez temas, três deles instrumentais (Atmosphere, Electrified e Déjà Vu), a composição é de António Mão de Ferro, seis das letras são de Bernardo Fesch e uma de Kiko Pereira (The Long Road), que também contribuiu para as vozes de “Time“. A apresentação foi adiada duas vezes, devido às restrições pandémicas, e realizou-se a 17 de junho de 2021 na Sala 2 da Casa da Música.

Empilharam-se 470 dias sobre o último concerto ao vivo a que assisti. Curiosamente, na mesma sala. Os ocupantes que, hoje, esgotam a lotação interpolada das cadeiras, têm o rosto coberto, e na mão amputada de um copo seguram o CD “Lunatic” oferecido à entrada. Há um corner de teclados, duas baterias, um stand de guitarras e um baixo estacionadas sobre o palco, a posar para as câmaras que vão filmar o espetáculo, com uma tela de projeção como único cenário.

Ao extinguir das luzes, Diogo Santos (teclados), Diogo Mão de Ferro (guitarra) e Jorge Oliveira (bateria), Leandro Leonet (bateria), e Bernardo Fesch (baixo) assumem posições. Depois de um compasso de espera, António Mão de Ferro sobe para o desnível atrás da banda, e um ambiental Atmosphere Part I instala-se nas entranhas.

A bateria lança o ritmo, acendem-se estacas de luz, e a banda ataca “Lunatic” contra imagens fluídas de manchas a preto e branco. O baixo dá a partida para “Electrified”, o palco ilumina-se de vermelho e cores caleidoscópicas atropelam-se. A dupla percussão cria um stereo analógico, sobre o qual a guitarra de Mão de Ferro joga snooker, abrindo espaço para cada um dos instrumentos, e empurrando-o com precisão. O desassossego do psicadelismo toma conta da sala. Compete a “The Storm” restabelecer a serenidade. A balada desliza apenas sobre uma bateria, estabelecendo um dueto ubíquo entre a voz e a guitarra de António. Talvez a voz seja instrumental e a guitarra orgânica. “Tears” permite a Jorge Oliveira e Leandro Leonet umas braçadas de natação sincronizada, e a Diogo Mão de Ferro um merecido protagonismo, sobre um fundo de manchas amorfas que se espalham pelo écran.

Time” anuncia o tempo dos contratempos pela voz modulada de Kiko Pereira, que conquista o palco e o público com a mesma facilidade, domando-os. Na tela desfilam esgares de desalento com headphones. O tropel de uma cavalgada aproxima Kiko de Mão de Ferro para, lado a lado, percorrerem “The Long Road” sobre as baterias em uníssono, enquanto os restantes instrumentos correm, saltam e rodopiam em torno deles.

Um azul aveludado acalma os sentidos, o piano apresenta-se, e uma guitarra suplicante leva-nos pela mão até à dor do fado, remexendo na angustia de memórias ancestrais de Dejá Vu. Os feixes cravados ressuscitam para orientar o baixo, que navega nas ondas da projeção, rebocando o sussurro intimista e lânguido de “At The Edge of The World”. Um conforto vintage instala-se nos lugares vagos, como um velho amigo de visita. O despertar fica a cargo de “Right or Wrong”, uma canção bem disposta e estival, dançada pelo piano jazzístico e pela guitarra atrevida.

António Mão de Ferro sobe para o desnível atrás da banda para encerrar com o “Atmosphere” com o qual começou, agora complementado pela “Part II”, com o som no limite da potência, a trepar pelas paredes, embater no teto, e explodir num vórtice apoteótico. António Mão de Ferro despede-se e o palco esvazia-se, com público a exigeir o encore da praxe a banda a não se fazer rogada.

Obrigada, António Mão de Ferro pelo fim dos 470 dias de privação.

Texto: Ana Cristina Carqueja
Fotografias: Laura Lopes

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