Garbage, “No Gods No Masters”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Um novo disco que procura manter viva a chama que os Garbage sempre escolheram para iluminar o seu caminho no universo do rock, optando pela coerência em vez de avançarem por novas sonoridades.

Irrompendo com força e determinação na última década do século passado, com dois discos poderosos, “Garbage” (1995) e “Version 2.0” (1998), suportados com hits como “Stupid Girl”,  “I’m Only Happy When it Rains” ou “I Think I’m Paranoid”, a banda norte-americana vendeu milhões e rapidamente impôs o seu nome entre os que, então, propunham um rock mais enérgico, algo de que Seattle não teria exclusividade. Shirley Manson cultivava uma postura de rebeldia e insolência quase punk, até em contraste com os restantes elementos da banda, todos já maduros. A imagem e o som caíram bem, seguindo-se o convite para a banda sonora de “World is Not Enough”, da série 007. A partir daí as vendas caíram, os discos tornaram-se irregulares, sendo que, desde 2005, só tinham editado dois discos, ambos bem recebidos, mas sem outros efeitos práticos que não fosse relembrar os fãs de que ainda estavam vivos.

Garbage |“No Gods No Masters” | 2021

Agora, a escocesa e os seus três companheiros norte-americanos apresentam “No Gods No Masters” onde continuam não só a levantar a bandeira da contestação como mantêm a abertura à electrónica, o que resultou num som próximo dum post-punk, mas claramente mais sofisticado. As letras continuam a espelhar, como sempre, dois temas: protesto/denúncia e questões existenciais. Pela sua intensidade, destacam-se “The Creeps” e “Wolves”, qualquer deles perfeitos para arrasar ao vivo, com a segunda a evocar a lenda cherokee do “lobo mau e do lobo bom” como imagem da dualidade existencial. Aliás, a “presença divina” não está só no título, “No God No Masters…to obey”, como em outras faixas como “Waiting for God” e “Godhead”.

Por sua vez, a crítica social apresenta-se logo no primeiro tema, “The Men Who Rule the World”, uma evidente condenação ao materialismo e ao “deus dinheiro”, incitando a “The violator, destroy the violator” (por falar nisso, o início de “Godhead” é tão Depeche Mode que até se estranha…). O mesmo em “Unconfortably Me”, onde Shirley denuncia a obsessão pela futilidade da moda e pela vida das estrelas: “Wanted their body, wanted their hair, Wanted the way that they walked straight ahead of me”; continuando em “Flipping the Bird”, expressão que não se traduz por “virar o pássaro”… Aliás, este é um dos temas que pisca o olho a sonoridades pop, tal como “Anonymous XXX”, que quase podia fazer parte da banda sonora do próximo James Bond… No fundo, tudo se resume ao título do disco, aconselhando a que sejamos senhores de nós mesmos, dispensando “deuses e senhores”.

Merece referência o segundo disco, presente na versão “deluxe” de “No God No Masters”, que contém mais sete temas, entre eles duas excelentes covers, a de “Starman”, de David Bowie, e “Because the Night” de Bruce Springsteen/Patti Smith, além de vários convidados, como a punk Brody Dalle e gente bem conhecida do indie-rock como Brian Aubert (Silversun Pickups) e os Screaming Females, entre outros.

Um novo disco que procura manter viva a chama que os Garbage sempre escolheram para iluminar o seu caminho no universo do rock, optando pela coerência em vez de avançarem por novas sonoridades. Afinal, se Shirley Manson passou há pouco a barreira da meia-idade, os restantes elementos da banda já estão a caminho dos setenta anos. Um deles até já lá chegou. Seja como for, “No Gods No Masters” não deixa de ser uma proposta forte e intensa duma banda que parecia ter perdido o comboio.

Pedro Brás Marques

Últimas Reportagens
Menu

Bem-Vindo(a)!