John Grant, “Boy from Michigan”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Um disco duro, denso, com letras pesadas, próprio para ser ouvido sentado e, de preferência, com as letras à mão.

Have you come here to play Jesus to the lepers in your head?” pergunta Bono na melhor canção de sempre dos U2. E vale a pena evocar esta pergunta porque John Grant anda há cinco discos a tentar curar os leprosos que vivem na sua cabeça, quase todos nascidos da complicada relação que tem com o seu passado e com a sua sexualidade.

John Grant | “Boy from Michigan” | 2021

Natural de Buchanan, no Michigan, John Grant cresceu humilhado na escola pelo constante “bullying”, demorou a fazer o seu “coming out”, viu-se infectado com SIDA, pelo que sempre procurou encontrou na música as respostas e a expiação que outros só encontram no divã do psicólogo. O norte-americano integrou a banda The Czars durante uma década, desde a fundação até ao epílogo e avançou, em 2010, para uma carreira a solo que se iniciou com um disco extraordinário, “Queen of Denmark”, seguindo-se outro grande trabalho, “Pale Green Ghosts”, que veio cá apresentar, em 2014, ao NOS Primavera Sound. Foi o primeiro disco gravado na sua nova terra de acolhimento, a Islândia, onde vive desde 2012 e onde centra a sua actividade. Lançaria, ainda, mais dois discos, “Grey Tickles, Black Pressure”(2016) e “Love is Magic” (2018) antes de se chegar ao novíssimo “Boy from Michigan”.

Como o título deixa antever, Grant enfrenta de novo os seus fantasmas e o seu passado. Metade das canções têm mais de seis minutos, o que indica essa necessidade de tempo, de espaço para poder respirar e revelar o que está dentro de si. Algumas coisas são negras, como deixa de forma clara e inequívoca em “Rusty Bull”, que faz acompanhar duma batida cardíaca: “And he visits me while I lie in my bed, He says “Your daddy can’t undo what’s done”, And forty years later I’m still trying to run”… Esta canção, juntamente com o tema-título e “County Fair” são as três iniciais do disco e remetem para a vivência infantil de Grant, que as intitula “The Michigan Trilogy”. Para sublinhar a sensação de viagem no tempo, o autor recorre à sonoridade etérea dos sintetizadores, só mais tarde entrando a batida, já quando a sua voz grave há muito narra os acontecimentos de há décadas. A viagem nostálgica continua, ao piano, em “The Cruise Room” e em “Mike & Julie”, onde a narrativa é sobre a paixão não assumida por um homem e o desejo que uma mulher intervenha para repor a “normalidade”: “Now Julie is coming and she’ll be here soon, She’ll be my escape from the truth in this room”. Segue-se “Best of Me”, onde Grant emula descaradamente os Kraftwerk, acelerando para “Rethorical Figure”. O registo permanece coerente até chegarmos à “magnum opus” que é “The Only Baby”. Pianos e sintetizadores a enquadrarem um fresco narrativo do estado de coisas da América da era Trump, “We know which ones come from our father in the sky, And we know which ones were designed by the “other guy”, That thing in the White House is beholden to a deity”…

John Grant é um songwriter de excelência que não consegue fazer nada mal. “Boy From Michigan” é mais um exemplo a juntar aos anteriores quatro. Mas, desta vez, propõe um disco duro, denso, com letras pesadas, próprio para ser ouvido sentado e, de preferência, com as letras à mão. Porque é preciso alguma concentração para se visualizar e principalmente fechar este arco que une a infância de John Grant à América contemporânea, onde se sente dor e ainda não se vislumbra esperança, nem para o país, nem para ele, como se parece concluir do amor frustrado de “Billy”, a última canção: “And we set about destroying ourselves (…) Members of the cult of masculinity”…

Pedro Brás Marques

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