Liz Phair, “Soberish” | Lucy Dacus, “Home Video”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Novos discos para duas songwriters de diferentes gerações - Liz Phair e Lucy Darcus - com muito mais a separá-las do que a idade…

Novos discos para duas songwriters de diferentes gerações. Liz Phair nasceu no seio da primeira grande explosão indie, no início dos anos 90, com bandas de projecção global, enquanto Lucy Dacus nasce para a música já na segunda década do actual século, quando a quantidade de performers dentro do estilo teve um crescimento exponencial, ao mesmo tempo que tudo se tornou bastante mais intimista. Por isso, há muito mais a separá-las do que a idade…

Liz Phair |“Soberish” | 201 – Lucy Dacus | “Home Video” | 2021

Foi em 1993 que Liz Phair se deu a conhecer, com um álbum extraordinário, “Exile in Guyville”, conseguindo, nesse ano, chegar ao sol apesar da sombra de gente da área alternativa tão ilustre como os Nirvana com “In Utero”, Smashing Pumpkins e “Siamese Dream”, Morphine com “Cure for Pain”, Pearl Jam e “Vs” entre outros. O segredo estava naquele som roufenho, “puro”, claramente indie, em letras atrevidas como “Fuck and Run” e canções que ficaram para a história, como a inevitável “Never Said”. Continuou a gravar, ainda deu um ar de graça com o álbum homónimo de 2003 e, sete anos passados, eclipsou-se. Uma década depois está de regresso com “Soberish”, mas, tal como se repetia num conhecido anúncio, não é a mesma coisa.

Na verdade, Liz Phair aburguesou-se. Ouve-se este novo trabalho e fica-se com a impressão que a cantora se deixou levar para o mainstream sem sequer dar luta. A voz é “flat”, as guitarras estão adormecidas, há electrónica um pouco por todo o lado, como se um tsunami pop se tivesse sobre ela abatido. Pior, às vezes há por ali uns ecos de country pop completamente deslocados. Ouça-se “Hey Lou“, “Ba Ba Ba” e “In There” e fica-se esclarecido. É evidente o cuidado colocado na produção, o que poderá ter sido contraproducente porque aquela vital energia indierock desapareceu.

Felizmente, escutar o novo trabalho de Lucy Dacus tem efeito oposto. Depois de “No Burden” (2016) e, especialmente, de “Historian” (2019), sem esquecer a enxurrada de covers em 2019, a americana acabou de lançar “Home Video” onde mostra já uma grande maturidade, como demonstra logo no tema de abertura, “Hot & Heavy”, que se inicia com o habitual registo de voz e guitarra acústica, subitamente cortadas por descargas eléctricas e bateria. Muito bom. Segue-se voz, guitarra e piano em “Christine”, para a explosão de “First Time” e o muro shoegaze em “VBS”. Aplausos, ainda, para as melodiosas “Cartwheel” e “Brando” e para a desconcertante “Partner in Crime”: “Do you lovе me? Do you love me not?”.

Há muitas canções confessionais, algumas relacionadas até com religião, como em “First Time” e a passagem pela “escola bíblica” em “VBS”. Mas, no geral, “Home Video” é um trabalho pleno de força e que mostra uma Lucy Dacus tão à vontade enquanto “songwriter” como na vertente “storyteeling”. O seu processo de maturação continua, mostrando, também, os efeitos positivios da participação no projecto “boygenius”, com Julien Baker e Phoebe Bridgers, cuja influencia é evidente, por exemplo, em “Brando”. Altas expectativas que poderão ser confirmadas ao vivo, já que a tour europeia está agendada para Março e Abril de 2022. Sem passagem pela Península Ibérica. Ainda…

Pedro Brás Marques

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