Art School Girlfriend – “Is It Light Where You Are”

SUSPEITO PEDRO TAVEIRA
Perfeito para as noites de Outono que se avizinham. Ou para Outonos amorosos. Ou Primaveras esperançosas.

Polly MacKey é galesa (Wrexham), mas cedo passou para Inglaterra, onde viveu nos três últimos anos na cidade costeira de Margate, no Kent, o que lhe permitiu alargar os horizontes visuais, depois de uma claustrofóbica estadia inicial de cinco anos em Londres.

Em Margate, adoptou o nome artístico de Art School Girlfriend por inspiração da sua então namorada, com quem explorava uma livraria (Polly é assumidamente gay e activista da causa LGBT), tendo entretanto assinado pela editora do famoso produtor Paul Epworth, Wolf Tone Records.

Depois de uma tournée americana em que acompanhou os The Japanese House, Polly rompeu o seu relacionamento de seis anos e mudou-se de Margate novamente para Londres, onde além de fazer evoluir a sua carreira de artista, dá igualmente aulas de produção musical no ICMP – Institute Of Contemporary Music Performance.

Is It Light Where You Are”, o seu álbum de estreia, assenta na crónica desta ruptura amorosa, que levou a perfeccionista Polly a viver 14 horas diárias no estúdio, durante duas semanas, enquanto gravava e produzia.

Art School Girlfriend - Is It Light Where You Are - Vinyl LP – Rough Trade

A fusão da sua voz grave e quente com o pano de fundo frio dos sons eletrónicos é muito cativante, tendo ocorrido uma assinalável evolução desde os primeiros EP’s até este primeiro álbum.

A distorção sonora crescente do tema de abertura “In the Middle”, invoca as sensações de um ataque de pânico que termina numa acalmia, e que segundo Polly, pretende replicar o que sentiu nos momentos que antecederam o fim do seu relacionamento, sendo que o tema seguinte do álbum, “Is It Light Where You Are” (um jogo de palavras com a luz e a leveza de paradeiros distintos no decurso de um telefonema), parte daquele final, com as primeiras linhas da letra a traduzirem isso mesmo – «I lost my head there for a minute», mas a dar a nota de que a vida segue e tudo se recompõe.

Ninguém passa por este processo sem erros intercalares, como reflecte em “Softer Side”: quando, ainda fragilizados, projectamos qualidades e atributos em alguém que acabamos de conhecer, até percebermos que a realidade é bem distinta da ficção.

Mas a vida continua e acabamos por conhecer outra pessoa, um novo relacionamento. “Give” regressa às primeiras semanas de descoberta e da sensação – pela qual todos passámos alguma vez – de que agora é a sério. “Good As I Wanted” segue na mesma linha da vertigem sobre o precipício de um novo relacionamento, e das dúvidas sobre se o outro sente o mesmo.

Quando uma relação longa termina, temos que nos habituar de novo a viver sós. Mas enquanto assim estamos também nos aborrecemos imenso e deixamos de gostar tanto de nós. E a nossa mente ruidosa não pára e não nos larga um minuto… o tema de “Bored of Myself”.

O álbum termina com “Eyes on You”, ironicamente escrita há muitos anos, em contraciclo com a temática geral de ruptura – é o fecho de um capítulo e o início de um novo, em branco, como só a vida nos permite escrever.

Is It Light Where You Are” é um álbum de maturidade, quase nem se notando que é uma estreia. O melhor da eletrónica ambiental e uma voz (que voz!), numa fusão melancólica e doce, com letras que nos fazem revisitar as nossas próprias biografias amorosas.

Perfeito para as noites de Outono que se avizinham. Ou para Outonos amorosos. Ou Primaveras esperançosas.

Pedro Taveira

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