Manic Street Preachers, “The Ultra Vivid Lament”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
A homogeneidade das onze canções é inegável, quer ao nível sonoro, quer das letras, mostrando a fragilidade humana a que os Manic Street Preachers não são, naturalmente, alheios.

Quando uma banda de rock atinge uma data mais redonda, como umas Bodas de Prata, geralmente a editora aproveita para recordar a carreira do grupo com uma colectânea ou um registo ao vivo. Mas os Manic Street Preachers sempre foram uma banda diferente e isso notou-se, agora, com este novo trabalho, “The Ultra Vivid Lament”, em que, em vez dum registo auto-laudatório, optaram por fazê-lo reinventando o seu som e sentando-se no divã do psicólogo, mas sem renunciarem ao seu passado e a algumas das temáticas cuja bandeira souberam erguer ao longo destes vinte e cinco anos.

Manic Street Preachers | “The Ultra Vivid Lament” | 2021

O som poderoso e intenso que construíram em álbuns fantásticos, como a trilogia “The Holy Bible”, “Everything Must Go” e “This is My Truth Tell Me Yours”, deu agora lugar a canções mais melódicas, a que não é alheia a introdução do piano como elemento fulcral. Bem vistas as coisas, a nostalgia é algo que emerge quando se olha para o caminho percorrido, o que, no caso destes galeses, ficou marcado de forma brutal pelo misterioso e inexplicável desaparecimento do baixista Richey James, em 1995, acontecimento que ainda hoje os perturba, como se comprova pela canção inicial, “Still Snowing in Sapporo”, uma referência à tour que a banda realizou no Japão, em 1993, em que tudo ainda parecia perfeito, tal qual uma paisagem pintada pela neve, em que os quatro elementos estavam juntos e motivados: “The four of us against the world, against the world“…

Segue-se a invocação distópica de “Orwellian”, onde James Dean Bradfield constata que tudo mudou, talvez para pior: “The future fights the past, the books begin to burn”. E se, até aqui, as teclas estavam mais ou menos discretas, em temas como em “The Secret He Had Missed” (dueto com Julia Cumming, dos Sunflower Bean) e “Don’t let the Night Divide Us” parece que recorreram aos serviços de Benny Anderson, dos Abba… A consciência de que o curso do tempo é imparável e que os seus efeitos são palpáveis é reconhecido em “Quest for Ancient Colors”: “I used to control, But now I just feel used, Herе’s what I discovered, In my quest for anciеnt colour”… Umas das melhores propostas é “Complicated Illusions” onde os arranjos evocam as composições mais sinfónicas de Springsteen ou os trabalhos a solo de Lindsay Buckingham, por exemplo. A letra é excelente, na sua perfeita melancolia: “On a street of old bones, Dust masquerades as skin, Time turns itself to stone, Nothing left to lose and nothing left to win”.

Na recta final, os Manics aproximam-se do seu som mais característico, cheio, preenchido e sombrio, embora o passeio reflexivo pela “memory lane” continue. “A slow painful goodbye to glory – goodbye to glory” está no primeiro aviso, o dueto com Mark Lannegan, “Blank Diary Entry”. Segue-se “Happy Bored Alone”, talvez a canção em todo o álbum mais próxima daquilo a que a banda nos habituou, com um belíssimo “diálogo” entre o baixo e a guitarra, enquanto Bradfield se questiona: “Why the chaos living in your soul?”. O disco termina de forma perfeita com a significativa “Afterending”, onde a falta de respostas se mantém e nos é feito um convite, “Sail into the abyss with me”, seguindo-se um comemorativo e festivo coro, composto por toda a banda, qual grupo de amigos unidos por uma mesma história de vida.

Surpreendentemente, apesar da mudança estético-sonora, a verdade é que tudo resulta muito bem. A homogeneidade das onze canções é inegável, quer ao nível sonoro, quer das letras, mostrando a fragilidade humana a que os Manic Street Preachers não são, naturalmente, alheios. Concluiu-se, portanto, que o lamento depositado no título, para lá do relacionado com Richey James, não tem qualquer razão de ser. Muito pelo contrário!

Pedro Brás Marques

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