NOS PRIMAVERA SOUND – round 3

“I ain't happy, I'm feeling glad, I got sunshine in a bag, I'm useless, but not for long, the future is coming on, it's coming on, it's coming on”
NOS PRIMAVERA SOUND – round 3

Ao terceiro dia a extensão do que ficou para trás excede a do que está para diante, num fenómeno parecido com o ultrapassar da meia idade. A gestão das solicitações torna-se mais madura, o corpo já se habituou ao esforço e a mente aprendeu a criar os seus próprios intervalos de descanso. Parece haver mais estrangeiros, mas talvez sejam apenas mais barulhentos, ou se tenham agrupado. A meteorologia manter-se-á perfeita até ser domesticada pela humidade noturna. O festival manter-se-á perfeito muito para além disso.

A receção é feita pelos Dry Cleaning, com a paradoxal declamação de Florence Shaw (voz) sobre a irrepreensível sonoridade post-punk de Nick Buxton (bateria), Lewis Maynard (baixo) e Tom Dowse (guitarra). Há uma estética comum entre Florence e a Morticia Adams de Angelica Huston. Leafy (New Long Leg) é de uma intimidade quase mística, uma meditação guiada pela voz, mas em Unsmart Lady (New Long Leg) o instrumental descola e levanta voo em direção ao psicadelismo, ao mesmo tempo que se mantem ancorado à contida récita de observações quotidianas numa dicção perfeita. Stong Feelings (New Long Leg) é antecedida da primeira interação com o público – “Are there any Pedros over there? I’ve got bad news for you, this song isn’t for you, it’s for this Pedro over here.” Em Her Hippo (New Long Leg) a ligação entre a energia do trio instrumental e a quase monocórdica spoken word é de uma elegância surpreendente. Viking Hair (Boundary Road Snacks and Drinks) regressa à autenticidade das origens, e More Big Birds (New Long Leg) é o mais próximo que a banda chega de uma balada, atenciosamente dedicada a Paula Rego. Traditional Fish (Sweet Princess) e Magic of Meghan (Sweet Princess) retomam as primeiras gravações da banda, quando a inspiração saltitava de listagens de comes e bebes para desventuras amorosas em tempos de noivado real. Segue-se Tony Speaks (New Long Leg) e apesar de não ser óbvio o que tenha para dizer, há um magnetismo que impele a escutar. Encerram com o êxito da mãe à beira de um ataque de nervos de Scratchcard Lanyard (New Long Leg) sem que Florence perca a candura.

Dry Cleaning

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O noise rock dos Pile serve de banda sonora a quem se estende ao sol ou na sombra do espaço que, apesar de todos os anos mudar de nome, teima em manter-se na memória coletiva como ATP ou Pitchfork. O ecletismo instrumental dos impronunciáveis Khruangbin dá cor ao cimento que mais adiante haverá de ser levantado do chão pelo hip hop de Little Simz.

Os Dinossaur Jr. de J. Mascis (voz, guitarra) Lou Barlow (voz, baixo) e Emmett Murph (bateria) fizeram um desvio por Itália entre os festivais de Barcelona e do Porto, mas a companhia aérea extraviou-lhes os instrumentos e aterraram em Portugal só com as palhetas nos bolsos. Remediado com equipamento emprestado, J. Mascis não perde o semblante carregado. Lou Barlow encarrega-se de manter o ânimo e puxa pelos galões: “We are from the 80’s: not the 90’s, the 80’s!.” A voz arrastada de Mascis e o som distintivo das guitarras clássicas dos anos 1960 e 1970 com feedback e distorção são comuns à vasta discografia da banda. São repetentes no parque da cidade e acompanham o pôr do sol com um alinhamento sem surpresas: Thumb (Green Mind), I Ain’t (Garden), Garden (Garden), The Wagon (Green Mind), Been There All The Time (Beyond), Start Choppin (Where You Been), Little Fury Things (You’re Living All Over Me), Out There (Where You Been) Feel The Pain (Without a Sound), Mountain Man (Dinosaur), Freak Scene (Bug). Encerram com duas covers: o incontornável Just Like Heaven (The Cure)e Chunks (Last Rights).

Dinosaur Jr

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Os Interpol de Paul Banks (voz, guitarra), Daniel Kessler (guitarra e voz) e Sam Fogarino (bateria, percussão e samplers) trouxeram os habituais reforços de Brandon Curtis (teclados e voz) e Brad Truax (baixo e voz). Na terceira incursão pelo Nos Primavera Sound parecem manter-se imutáveis: não acusam desgaste mas também não refletem inovação. Nos impecáveis fatos assertoados tocam o seu melódico indie rock nova iorquino sem falhas e sem deslizes. Apesar do joge de luzes coloridas e dinâmicas optam pela transmissão nos écrans apenas a preto e branco, aumentando a distância para quem está no alto da encosta. Imperturbáveis, desfiam 20 anos de êxitos espelhados em 6 álbuns com competência invejável. Untitled (Turn On the Bright Lights), Evil (Antics), Fables (The Other Side Of Make Believe), C’mere (Antics), Pioneer to The Falls (Our Love to Admire), Not Even Jail (Antics), Narc Antics), Toni (The Other Side Of Make Believe) e Obstacle 1 (Turn On the Bright Lights) sucedem-se com uma seriedade quase solene. All The Rage Back Home (El Pintor) acorda a concentração hipnótica do público, logo retomada em Rest My Chemistry (Our Love to Admire) The Heinrich Manoever (Our Love to Admire) e The Rover (Marauder), The New (Turn On the Bright Lights), PDA (Turn On the Bright Lights) e Slow Hands (Antics). Deliberada ou desalentadamente, ao longo de hora e meia de espectáculo a barreira invisível entre o palco e o público parece nunca se dissolver.

Interpol

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O compasso de espera para os cabeças de cartaz que actuam à 01h00 é estrategicamente preenchido pela curiosidade em apreciar o espalhafato de Grimes em formato DJ Set no palco da entrada. Cria mobilidade entre os presentes e desperta um foco de interesse nos retardatários.

Os Gorillaz são 4 bonecos animados por Jamie Hewlett: 2-D (voz, teclados), Murdoc Niccals (baixo), Noodle (guitarra, teclados, voz), e Russel Hobbs (bateria) num universo ficcional resultante da prolífica composição musical de Albarn. Damon Albarn tem sido um artista à frente do seu tempo: em 2001 criou a primeira banda virtual, em 2017 materializou-a nos espetáculos ao vivo, e em 2020 trocou a edição de álbuns por web series, alimentando o mistério permanente sobre o passo seguinte. Os Gorillaz traduzem o expoente máximo do conceito de pop art warholiana e abrangem um espectro ilimitado de géneros musicais, que incluem inúmeras declinações de rock alternativo, hip hop, trip hop, funk, eletrónica, dance music, e tudo o mais que a genialidade do seu criador entender abarcar. Duas décadas de espera mobilizaram a maior concentração de espectadores do festival. O concerto começa com a projeção animada “The Static Channel”, seguida de um “OLÁ” em todos os écrans que dá as boas vindas a uma dezena de músicos, que incluem dois sets completos de bateria e um de percussões e um potente coro soul. Albarn apresenta-se de cor de rosa, com um blusão fúcsia e lança-se a M1A1 (Gorillaz) entre luzes e imagens indistintas de movimento e ruído que põem a multidão aos saltos. Em Strange Timez (Song Machine) faz um dueto virtual com Robert Smith numa magnifica animação lunar. “Are you ready? Are we the last living souls?” traz Last Living Souls (Demon Days) para a relva e para cima das grades de proteção onde se empoleira sem largar o microfone, e onde haverá de regressar múltiplas vezes. Regressa ao palco em Tranz (The Now Now), acompanhado pelos cartoons digitais em sincronismo perfeito. Ao frenético 19-2000 (Gorillaz) sucedem-se Tomorrow Comes Today (Gorillaz) e Rhinestone Eyes (Plastic Beach) com os subgraves a chegarem às entranhas da terra. Beck desencadeia a euforia ao viquando vem cantar The Valley of The Pagans (Song Machine) pela segunda vez no mesmo festival e palco, agora potenciado por uma banda completa de carnalidade analógica. Cracker Island antecede uma mudança de vestuário para roupão de boxer rosa forte cujo capuz oculta o rosto de Albarn ao piano no reflexivo O Green World (Demon Days). Pirate Jet (Plastic Beach) beneficia de um formato alongado e ninguém quer que termine. O ondular de On Melancholy Hill (Plastic Beach) alastra-se por todo o relvado impelido por uma força de Colioris. A produção cinematográfica de El Manana (Demon Days) é de uma mestia alucinante a misturar imagens de palco com animação. Kids With Guns (Demon Days) antecede a imponente voz de Bootie Brown em Stylo (Plastic Beach) e a aplaudida entrada de Fatoumata Diawara para o dueto de Desolé (Song Machine). Um elevador sobe até Andromeda (Humanz) que conta com a participação de D.R.A.M. seguida do rap ultraveloz de Little Simz em Garage Palace. O funk de Dirty Harry (Demon Days) mistura um coro infantil virtual animado que não escapa à camara de nenhum telemóvel, com a energia de pele e osso de Bootie Brown. Feel Good Inc (Demon Days) fica a cargo de POS e dos milhares de pessoas que cantam e dançam. Momentary Bliss (Song Machine) antecede o encerramento com uma interpretação tridimensional de Clint Eastwood (Gorillaz): no palco, nas animações de 2–D, Murdoc, Noodle e Hobbs e no recinto. Nem o corte final do som mina a apoteose. Gorillaz é quase demasiado bom para ter acontecido.

Gorillaz | FOTO: Hugo Lima

O Nos Primavera Sound 2022 trouxe o eletromagnetismo de Nick Cave & The Bad Seeds, a física quântica de Beck e a força oculta de Gorillaz. No mesmo palco, demonstraram que a música se agiganta em equações complexas de talento, carisma, cumplicidade e profissionalismo. O Nos Primavera Sound 2022 catapultou para o momento presente The Beatles, Frank Zappa e os Rolling Stones.

Texto: Ana Cristina Carqueja
Fotografias: Filipe Pereira

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