NOS ALIVE ’22 – 2º dia

12 anos depois de encher o palco secundário do festival, os Florence and The Machine presentearam um concerto memorável, que não ficará esquecido na história dos festivais em Portugal.
NOS ALIVE ’22 – 2º dia

Quinta-feira, um dos dias mais quentes do ano – praticamente irrespirável mas que, pensando bem, combina na perfeição com a cortina verde que se estende pelo Passeio Marítimo de Algés.

Sem grandes expetativas, o início de tarde ficou entregue aos palcos alternativos do festival. Primeiro para ver Alec Benjamin, um fenómeno de guitarra na mão, estilo pop-rock e que, entre os mais jovens, é rei (ficou bastante patente na percentagem de festivaleiros àquela hora, naquele local). Rapidamente passamos para aquele que é unanimemente o terceiro palco do festival – WTF Clubbing, normalmente ligado a tipos de música mais dançáveis, mas que àquela hora tinham os novíssimos Expresso Transatlântico – uma banda portuguesa composta por 4 elementos (bateria, baixo, guitarra e guitarra portuguesa), sem voz, e a fazer lembrar Dead Combo, na última passagem do duo com banda à mistura. Autênticos ritmos portugueses enfrascados em música do mundo, com toques muito relevantes da guitarra portuguesa – um nome a fixar.

Às 19h começava a encher-se o palco principal. Celeste estava pronta para o seu espetáculo soul – excelente para embalar nos ritmos seguintes de outro fenómeno: Jorja Smith.

Apesar de ter começado um pouco resguardada, a verdade é que Celeste (e a banda) foram-se desenvencilhando, e tornaram o concerto com cerca de uma hora uma boa experiência para introduzir o dia.

Galeria completa no

Jorja Smith era a seguinte. Com meia dúzia de trabalhos a solo, Jorja conquistou depressa o mundo da soul, r&b e hip hop com o seu jeito híbrido de criar música e a embalá-la em qualquer um destes sentidos. Isso notou-se também na moldura humana diversa, que talvez em grande parte não tinha comprado bilhete para vê-la mas todos queriam saber se conseguiria ao vivo a mesma força que emprega nas gravações de estúdio. Com a sua trança gigante, de vestido verde a contrastar com o fundo de palco escuro, um “corpo de mulher real” como se ouviu entre os que não a conheciam tão bem, essa veracidade também passa constantemente pela voz. Claro que músicas como “Blue Lights”, Gone” ou “Bussdown” criaram no público decibéis de contentamento mais constantes. Mas foi na reinterpretação de “Stronger Than Me”, música original de Amy Winehouse que aquele fim de tarde ganhou destaque. Aos 25 anos de idade Jorja Smith só precisa de ser ela prórpria, e isso também é transmitir transparência nas suas interpretações. Nota positiva.

Galeria completa no

Olhem uns para os outros, digam à pessoa ao vosso lado que a amam” ou “Larguem os telemóveis e sejam felizes” poderiam ser frases inspiradoras que se vêm em casas de amigos mas não foi o caso – foram pequenos pormenores poéticos de Florence, a mulher ruiva que ontem vestiu de vermelho e arrasou durante hora e meia com a maquinaria bem afinada dos The Machine. Ainda o Alive era Optimus quando os Florence +The Machine, no palco secundário, se davam a conhecer pela primeira vez em Portugal num concerto pelas costuras. Volvida mais de uma década, Florence e os seus amigos parecem não ter esquecido esse dia e presentearam-nos com um concerto com toda a energia e sonoredade para uma banda que por vezes é mal rotulada de comercial. Florence Welch empenha-se em cada música e esse registo é notório na sua voz única,  afinada e colocada como fisicamente – com as infindáveis “piscinas” que fez de um lado ao outro do palco. Este empenho acabou ser recíproco e o ambiente ficou contagiante num ápice. Músicas como ‘You Got The Love’, ‘Dog Days Are Over’ ou ‘Kiss With A Fist’ transportam-nos para o ano de 2010, para uma juventude passada, mas que continua bem presente na memória.

Os sorrisos genuínos de Florence converteram-nos e isso ficou claro na repercussão da maioria das músicas nos festivaleiros. Depois de uma hora de concerto, voltaram para um encore em pós-pandemia dando as mãos em celebração da vida. E não há quem não possa dizer que esta junção não lhe dá um quentinho no corpo.

Galeria completa no

Alt-J, os bem amados do NOS Alive na última década marcaram a sua quarta presença no festival – e viveram-na como se fosse a primeira. Normal, porque fãs convertidos esperam sempre o melhor, e há sempre novos adeptos para juntar ao culto.

Quatro anos depois da última presença no Altice Arena, em 2022 os Alt-J tinham um álbum novo para mostrar a este público, se bem que nenhuma das míticas músicas ficou esquecida. A tarefa de suceder a Florence +The Machine não era fácil mas foi um desafio aceite, à partida, pela banda de Leeds. Notou-se uma moldura mais jovem e indie em pé, e mais famílias sentadas longe, espalhadas pelo recinto.

A eletrónica estava em dia e “Matilda”, “Taro” ou “Breezeblocks” soavam brilhantemente e sem dúvidas para os que os acompanham Alt-J desde o álbum de estreia An Awesome Wave. Do novo disco, “The Actor” e “Hard Drive Gold” foram os sons que mais reações geraram em Algés.

Eles estão de boa saúde e, quem sabe, prontos para uma quinta presença no NOS Alive.

Texto: Rui de Sousa
Fotografias: Jorge Pereira

Menu

Bem-Vindo(a)!