Regina Spektor, “Home Before and After”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Regina Spektor continua a ser não só uma songwriter de excelência como uma compositora magistral.

Foram seis anos de espera, mas valeu a pena. Regina Spektor, que na primeira década deste século conquistou o mundo com dois álbuns verdadeiramente excepcionais, “Begin to Hope”(2006) e “Far”(2009) está de volta após dois escassos lançamentos na década seguinte, “What We Saw from the Cheap Seats” (2012) e “Remember Us to Life”(2016). Isto para lá de incontáveis colaborações, bandas sonoras e demais actividades paralelas que lhe preenchem o tempo.

Regina Spektor | “Home Before and After” | 2022

Então, o que é que de novo traz esta prolífica songwriter americana de ascendência russa e educação judaica? Na verdade, o que era bom mantém-se, em especial aquela capacidade rara para criar melodias envolventes, com o piano como acompanhamento privilegiado e letras sobre questões existenciais e que reflectem estados de alma agitados. Mas se a presença de deus em Regina Spektor é constante, acontece sempre numa perspectiva positiva, de esperança, ao inverso do que acontece, por exemplo, no universo negro de Nick Cave. Aliás, a songwriter chega a invocá-Lo com humor: “I heard God call out my name, And he said ‘Hey Let’s grab a beer’”, como relata no tema de abertura, “Becoming All Alone”, para, mais adiante, já num registo quase sinfónico, confessar a verdadeira origem da dor: “Why doesn’t it get better with time?”.

Uma onda musical dançável, com discretas influências étnicas, inunda “Up The Mountain”, sublinhada por uma letra repetitiva, quase obsessiva e ininteligível, com se duma reza, mais do que uma oração, se tratasse. Segue-se “One Man’s Prayer”, um pedido masculino a Deus para encontrar “a girl”, mas que cantando por uma mulher, heterossexual, ganha todo um novo significado… Chega, depois, “Raindrops”, quase só com Spektor ao piano, uma canção melancólica, sobre o poder do amor: “In a town that’s cold and gray, We will have a sunny day”. Entra, depois, em ritmo pop, “Sugarman”, um manifesto contra as mulheres-objecto, que vivem na dependência e subjugação do homem, sucedendo-lhe “What May Have Been”. Se esta já evoca sonoridades teatrais ou cinematográficas, isso acentua-se nos mais de oito minutos da extraordinária “Spacetime Fairytale” (onde não falta sapateado…) um longo exercício sobre o significado do tempo, das coisas, da existência: “I know there’s no such thing as time, I know there’s no such thing as mine”…

Igualmente belíssima, a construção de “Coin”, em jeito de parábola bíblica, sobre o efeito de oferecer uma moeda a diferentes pessoas com diferentes ocupações. Começa suave mas explode no refrão, fazendo eco da insatisfação de Spektor com as respostas. Em “Loveology”, há uma crítica a quem acha que a resposta a tudo está apenas dentro de nós, no uso da razão e da ciência, e não acredita no imaterial. Daí a necessidade duma nova área de conhecimento: “loveology”. O disco termina com “Through a door”, com Spektor ao piano, elogiando o conceito de lar: “Home is where the light’s on”…

Um disco complexo, inteligente, provocador e, ao mesmo tempo, recheado de belas composições, confirmando que Regina Spektor continua a ser não só uma songwriter de excelência como uma compositora magistral.

Pedro Brás Marques

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