NOS ALIVE ’22 – 3º dia

Os norte-americanos Metallica foram completamente explosivos na primeira aparição pós-pandemia e arregalaram para a segunda divisão todos os outros concertos do dia
NOS ALIVE ’22 – 3º dia

O sol tem estado em crescente, com a temperatura a chegar praticamente aos 40º, e a cada dia que passa nptam-se maiores enchentes no festival. Compreensível neste caso, já que os Metallica são cabeças de cartaz e uma banda de culto, com décadas e décadas de riffs e uma comunidade enorme que os acompanha em todos os concertos em Portugal, seja em festivais ou em casa fechada.

Neste dia viram-se menos camisas coloridas e mais t-shirts pretas, em sintonia com um cartaz mais virado para o metal e para o rock. Foi exatamente aí que começámos, com um concerto dos Alta Avenue a meio da tarde, no Palco Heineken. Banda norte-americana nutrida de um rock agradável mas também um pouco convencional, embelezado pela mensagem de apoio à Ucrânia (algo que não se tem visto muito neste festival).

Os Don Broco abriram o palco principal pelas 18h, debaixo de um calor infernal, mas o som mais virado para o punk-metal conseguiu contagiar as primeiras filas de corajosos que já marcavam lugar para os Metallica. A segunda vez da banda em Portugal, depois de uma presença há muitos anos no Porto, teve sinal positivo com boas reações do público – incluindo moches e um noivo vestido de noiva (uma boa despedida de solteiro, imagine-se).

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Naquele mesmo palco seguiu-se o outsider do dia. O rapper AJ Tracey tinha uma tarefa inglória – aglomerar atenções a um estilo cujo público estava 100% orientado para o rock n’roll. Mesmo que, nesta década as grandes estrelas do rap sejam consideradas rockstars, também se pode afirmar que isso não convence um fã de metal. Num palco muito nu – apenas com AJ Tracey e o DJ sobre o palco, e sem grandes artefactos (pouco normal nas performance rap), pouco conseguiu motivar numa plateia vestida de preto a lutar pelos melhores lugares para os Royal Blood e Metallica. Lá à frente, um pouco mais de uma centena de fãs vibraram com as músicas de Tracey, se bem que sem a ajuda da maioria do público acabou tudo por parecer sempre o mesmo. Espera-se melhor sorte num futuro alinhamento.

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Mais tarde e a começar a cair a noite em Algés, entraram os Royal Blood. O duo convertido em trio (para concertos ao vivo) reagiu bem e com ar entusiasmado em funcionar como preliminares ao concerto de Metallica. Aqui, os sons já entravam na mesma frequência daquilo que espera um bom apreciador de rock/metal, e o público deu oportunidade e apoio para eles brilharem com as guitarras elétricas ao longo de uma hora. Mike Kerr com o estilo de sempre e Ben Tratcher a envergar uma t-shirt do ídolo Lars Ulrich (que tocava logo a seguir) combateram e cativaram com os temas efusivos e eletrónicos de “Boilermakerm”, “Come on Over”, “Trouble’s Coming” e “Figure It Out”, provavelmente o maior hit numa banda que ainda não chegou a uma década de carreira.

Os britânicos possivelmente ganharam mais uns quantos adeptos, especialmente daqueles mais atentos, para quem novas bandas já fecharam para férias há muitos anos atrás.

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Conseguimos ainda espreitar boa parte do concerto de St. Vincent, o alter-ego de Annie Clark, uma autêntica coqueluche do pop-art americano que leva ao pormenor a sua música a um conceito estético e performativo.

A banda que a acompanha tem o trabalho de casa bem estudado – por um lado duas guitarras, uma bateria e por outro três backing vocals bem empenhadas e sincronizadas no soul que entregaram aos ritmos de disco emprenhados por St Vincent.

Idêntica a Marylin Monroe, St Vincent trazia uma vestimenta com um patch “Daddy’s Home”, menção honrosa ao seu último disco, baseado na saída do pai da cadeia depois de quase uma década por lá. O estilo funk deste novo disco ficou bem latente nas músicas “Down”, ou na homónima “Daddy’s Home”.

A conexão entre os sete elementos também é notória com performances que às vezes parecem treinadas, noutras totalmente improvisadas – e às vezes tão sensuais! Essa energia cai que nem ginjas para quem procura neste dia uma música mais leve e despida de preconceitos. É bom ir por momentos ao retro, passar pelo funk e o soul e voltar. Assim se conquista uma plateia, St Vincent!

Os Metallica abriram as hostes às 23h e só perto da 1h da madrugada fecharam o palco, com fogo de artifício a acompanhar. Mas já lá vamos! Os fãs da banda norte-americana já não viam estes senhores há quatro anos, apesar desta ser a 14ª presença deles em Portugal.

O começo foi algo idêntico ao do último concerto, com o instrumental de “The Ecstasy of Gold” (de Ennio Morricone e conhecida como música clássica do cinema em “O Bom, o Mau e o Vilão”). O aquecimento estava feito, faltavam só os glorificados do heavy-metal em palco. James Hetfield, Lars Ulrich, Robert Trujillo e Kirk Hammett surgiram segundos depois, um grito de “LISBOA!” e o começo do concerto com um potente “Whiplash”. Quem dizia que os Metallica no pós pandemia vinham desaprendidos (com alguns concertos menos conseguidos nesta tour), desenganou-se – todos pareciam bem conectados e com os riffs em dia. A energia passada pelo público em Algés, sempre fiel à setlist da banda sem se preocupar muito com a malha que vinha a seguir, previa grandes acontecimentos pela noite a dentro, Um trocadilho de Hetfield: “You’re alive?”, com um recíproco e audível “sim” convenceu até os mais tímidos na plateia.

A maioria dos clássicos não ficou esquecida: “Enter Sandman” fez o público saltar, “Nothing Else Matters”, talvez o hit mais comercial da banda contagiou até os menos convertidos a levantar o telemóvel para registar o momento. A onda efusiva de uma lotação esgotada refletia-se na entrega em dar sempre mais um riff, mais um pequeno solo de guitarra. Vale tudo, quando os Metallica estão a tocar, incluindo umas chamas nos momentos mais pesados – para aquecer um público já bem quente com a temperatura que se fazia sentir.

Destaque no concerto para “Seek and Destroy” e “Sad But True”. Os Metallica desapareciam passada aquela hora por defeito, que soa sempre a escassa. E claro, ainda com muitos clássicos por tocar ninguém arredou pé. Voltaram, tocaram “Damage Inc” e o nostálgico e futurista de “One”.

O que faltava para acabar? Uma música com anos e anos, mas que, Stranger Things, série inspirada nos anos 80, converteu num hit recente: “Master of Puppets” é um momento bem esclarecedor do heavy-metal e de como ele deve ser considerado. Podia ser um pormenor mas o baixista Robert Trujillo quis tornar aquilo um momento: saiu por breves instantes, largou a camisola preta e enveredou uma branca com a mensagem “Helfire Club” de alusão à série.

Os Metallica adoram-vos! Obri-fucking-gado!” foram as últimas palavras do concerto antes da saída inevitável e com um final muito colorido: um fogo de artifício de 5 minutos levantou mais uns quantos telemóveis.

Com Metallica o show está garantido, isso não acabou com a 14ª a vez e não acabará até serem eles a decidir que não conseguem dar um grande concerto. Obri-fucking-gado!

Texto: Rui de Sousa
Fotografias: Jorge Pereira

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