Viagra Boys, “Cave World”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Ao terceiro disco, os suecos estão em plena forma.

O espaço do rock tem sido alvo de invasões recentes, vindas, dum lado, do regatton e demais latinadas e, por outro, da praga dos DJs e produtores de electrónica. A resistência não precisou de ir para as Astúrias porque a área do punk-rock avançou com várias propostas, onde a palavra de ordem é arrasar tudo. O exército é composto por bandas como Idles, Fontaines DC, Squid, Yard Act, The Ninth Wave, com uma segunda vaga onde estão os Dry Cleaning, Wet Leg, Sleaford Mods, Black Country, New Road, entre outros. Portanto, se a reconquista acontecerá é uma incerteza. Certo é que o castelo está a salvo ainda para mais quando chegam mais reforços vindos da Suécia, os endiabrados Viagra Boys e o seu terceiro álbum, “Cave World”.

Viagra Boys | “Cave World” | 2022

A banda de Estocolmo, que já conhece bem Portugal, apresenta o seu disco mais corrosivo mas com uma sonoridade menos punk do que o habitual. Como o título já indicia, é um brilhante exercício de humor cínico sobre os tempos que correm, onde a ignorância e a crendice fazem caminho, em detrimento do conhecimento e da racionalidade.

O disco abre em força máxima com “Baby Criminal”, uma longa história de uma criança que acaba por se transformar num criminoso (“I used to be a baby, now I’m just a criminal”), com a mãe a chorar pelo destino seguido pelo filho. Há ecos de “Johnny 99”, de Springsteen, mas sem a vertente político-social, já que os Viagra Boys culpam a sociedade da indiferença e da cultura de violência em que vivemos. “Troglodyte” mantém o ritmo alto, explorando o absurdo existencial que nos transforma em trogloditas, pois vivemos em cavernas: o minúsculo apartamento, o cubículo de trabalho e por aí fora. Em suma, estamos piores do que os macacos: “You ain’t no ape, You’re a troglodyte”. A temática mantém-se em “The Cognitive Trade-Off Hypothesis”, um relato dançável da história do homo sapiens que Yuval Noah Harari não desdenharia…

Sons bluesy surpreendem em “Punk Rock Loser”, antes da chegada de “Creepy Crawlers”, um tema sobre a maluqueira das teorias de conspiração. Começa num registo paranóico que mimetiza o extraordinário “What is he Building?” de Tom Waits, mas rapidamente acelera, acompanhando o tom de delírio e demência com que Sebastian Murphy a interpreta. Aceleração impressionante em “Ain’t No Thief”, num registo spoken word, e onde não falta a já habitual referência ao “camarão”… Surge a apologia irónica da futilidade, em nova incursão pelos blues, em “Big Boy”, antecipando um inesperado mergulho dos Viagra Boys nas águas darkwave de “ADD”. O disco termina com o brutal e panfletário “Return to Monke”, insistindo na ideia de libertação face às imposições sociais contemporâneas e o regresso ao primitivo, ao bom selvagem rousseauniano.

Ao terceiro disco, os suecos estão em plena forma. Musicalmente continuam cheios de energia punk-rock, sem fechar as portas a outras influências. Ao nível das letras, aí estão melhores do que nunca, convocando todos à revolta, como é obrigação de qualquer bom punk

Pedro Brás Marques

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