Laura Veirs, “Found Light”

SUSPEITO - PEDRO BRÁS MARQUES
Uma excepcional capacidade para compor harmonias envolventes e suaves.

A songwriter norte-americana andava deliciada com o merecido sucesso comercial e crítico de “The Lookout”(2018) quando se viu confrontada com o seu divórcio, após um casamento longo de onde resultaram dois filhos, sendo que o ex-marido tinha a particularidade de ser o baterista e produtor da sua banda. Quase em catarse, verteu essa angústia em “My Echo” (2020), onde reflectia sobre o que fora, o que era e o que poderia ser a sua vida, procurando expiar essa indefinição através de dez melancólicas e belas canções. Não havia raiva, apenas a procura dum sentido. Quase dois anos depois, basta ver a foto da capa e ler o título do seu novo disco para se perceber que Laura Veirs encontrou o que procurava.

Laura Veirs | “Found Light” | 2022

As suaves “Autumn Song” e “Ring Song” dão início ao desfile das catorze canções que compõem “Found Light”. Registo folk, para voz e guitarra, onde Laura se congratula por ter encontrado “Of ways to be free, Of ways to let go, Of ways to be loved” e de ter deixado a aliança de casamento numa loja de penhores… Em “Seaside Haiku” já surge acompanhada pela banda, numa onda mais upbeat, e com um conselho: “Give but don’t give too much of yourself away”.

A necessidade de afirmação, seja política ou pessoal, está patente em “My Lantern”, quando quase sussurra “You bring me peace, you are my lantern in the dark”. Sempre na companhia solitária duma guitarra acústica, Laura confirma em “Can’t help but sing” que a música foi a sua salvação “my bitter, cold heart can’t help but sing”. Uma batida electrónica, mimetizando a sua corrida matinal, anuncia “Eucalyptys”, árvore que lhe faz recordar o passado e, por um momento, alguma acidez aflora: “You crushed me, And those next to me, Who loved me, loved me, You crushed me”. Felizmente, tem consciência do erro que é ficar a remoer no passado (“I’m turning my sword into a flower, My sword into a flower”, em “Sword Song”) e que, efectivamente, está disponível para amar: “make room for new arms” (“New Arms”)…

Aromas de bossa nova perpassam por “Time Will Show” e, em “T&O”, Laura fala dos seus filhos através das iniciais deles, “Don’t Forget That I really love you and I always will”, recorda-lhes. O disco, que começara no Outono, termina no Inverno, com sonoridade próxima do indie rock, em “Winter Windows”, onde reafirma que a força que a move vem de dentro: “Now it’s up to me, The lighting I can do”.

É usual os songwriters darem um cariz autobiográfico às suas composições. Laura Veirs não é excepção, mas a dimensão pessoal, quase íntima, que imprimiu, primeiro, em “My Echo” e, agora, em “Found Light”, contando o seu mergulho na amargura e a posterior emersão, quais capítulos da sua biografia, tornam este díptico em algo especial e singular. Isto, claro, sem esquecer a sua excepcional capacidade em compor harmonias envolventes e suaves, como se comprova ao longo dos doze discos que já editou ao longo de pouco mais de vinte anos duma carreira que diríamos imaculada.

Pedro Brás Marques

Últimas Reportagens
Menu

Bem-Vindo(a)!