Com os THE SLOW SHOW ao leme… M.Ou.Co assistiu a um dos concertos do ano

Uma identidade bem vincada e carismática na forma de fazer música: quer no palco, quer na atitude.

M.Ou.Co, Porto, sexta-feira, 21 de julho – Há uma massa de gente, algo compacta, que se concentra e acomoda expectante junto do palco, o relógio marca 21h32 quando os The Slow Show irrompem pelo estrado adentro, para alegria dos circunstantes. As vestes são negras, excepção feita à figura que se posiciona ao centro: o vocalista Rob Goodwin, cuja camisa branca lhe dá um ar imaculado, o líder soma um boné à indumentária, o que lhe confere um certo ar de chefe de clã dos Peaky Blinders (o Cillian Murphy que nos perdoe).

A epifania melódica, qual ritual envolvente, inicia com aquele coro espectral pré-gravado de “Dresden” (do álbum seminal White Water, 2015) e a voz de Rob, grave e marcante, em prelúdio para a entrada instrumental dos demais elementos: Chris Hough na bateria, Joel Byrne-McCullough na guitarra e Frederik’t Kindt nos teclados. O público acolhe bem este ‘prefácio musical’ de um concerto que irá durar cerca de uma hora e meia, para júbilo de quem assistiu.

A sequência harmónica prossegue com o teclado de Frederik’t (o belga da banda) a conduzir os presentes para uma planura aveludada à qual se empresta a voz carismática do líder que se cola ao tema “Strangers Now” (também de White Water) e assim embalamos todos, músicos e público, à boleia da mansidão bela das teclas de Frederik’t, da bateria compassada de Chris e ao auxílio nada despiciendo de Joel na guitarra. A coisa promete, desde logo, ser [mesmo] muito apreciada até ao final.

Mountbatten” (Still Life, 2022) entra a preceito na sequência, com Rob Goodwin a demonstrar todo um romantismo na pose, bem ao jeito de um crooner sedutor, com estilo aproxima-se da boca do palco e fita o público com a atitude perene de lirismo de quem está a sentir aquilo que canta. “Dream Darling” (tema homónimo do álbum de 2016) conduz-nos para a temática dos corações partidos, soa algo orquestral como de resto parece ser apanágio do diapasão da banda, daí que os The Slow Show convoquem amiúde, em alguns concertos, outros elementos instrumentais (coletivos que se encarreguem de cordas, metais/sopros, etc.) e que convertem a envolvência sonora em algo mais distinto e robusto.

‘Quando metem a quinta’, Anybody Else Inside’ (Still Life, 2022), Rob aproveita para agradecer “Muito obrigado, se vocês são trezentos, valem mesmo por três mil!” e a audiência exulta com o elogio. A sobriedade das luzes acolhe em seguida “Vagabond” (Lust and Learn, 2019), o tema em que o vocalista reflecte sobre o assunto (musical) de cócaras, posição que irá repetir a espaços. Joel evidencia os dotes com um enleante solo na guitarra.

Alguns, os mais afoitos, caem na tentação das volumosas conversas entre músicas, mas a ‘Associação do Chiuuu’ não deixa que essas vozes se ergam por muito tempo (urge fazer essa pedagogia nos concertos). “Hurts” (Dream Darling, 2016) traduz a comunhão em crescendo entre os músicos e a audiência (e vice-versa), as luzes verdes e os acordes na guitarra vão acolitando a voz encorpada de Rob e o público vai badalando em jeito de ‘ginganço suave’, para esquerda e para a direita, as anatomias. Em boa verdade, não será esta a primeira vez no concerto em que o balanço ritmado da música convoca os corpos ao abanão lento, ou não se chamassem eles The Slow Show.

Em “Rare Bird” (Still Life, 2022) o líder junta a guitarra à restante trupe instrumental, o vértice constituído por Joe, Chris e Frederik’t, trio que patenteia talento, mas que teima em revelá-lo de uma forma tão assumidamente sóbria quanto irrepreensível no contributo para ‘o todo sonoro’ da banda. E é isso mesmo que se constata em “Dry My Bones” (Dream Darling, 2016), logo a seguir, com o vigor instrumental a acentuar-se ainda mais. “Low”(Lust and Learn, 2019) convida a fechar os olhos e a ouvir o tema em regime de introspecção possível no meio da pequena miríade e de resto acentua o estatuto de espectáculo marcante que os músicos de Manchester teimam em assinar na Invicta, na sua primeira vinda (em exclusivo) a Portugal, pela mão d’Os Suspeitos – Mr. November.

E com “Hopeless Town”(2015) dá-se o suposto princípio do fim, que acontece com “Ordinary Lives” (Dream Darling, 2016) quando o espírito do público já se move num apelo gritado que acaba por tornar imperativo o encore e a satisfação dos músicos se espelha de forma indisfarçável nos rostos.

O desfile melódico posterior é portador de “Sharp Scratch” (Lust and Learn, 2019), “Who Knows”(Still Life, 2022). E é com “Bloodline” (White Water, 2015) que se atinge o zénite neste período de extensão do espectáculo, com toda a gente a cantar em uníssono e a esperar que ao contrário do refrão “This is the last time…” a próxima vez seja para breve. Com “Weighless” (Still Life, 2022) fazem-se as despedidas de um concerto que tão cedo não sairá da memória a quem teve o privilégio de assistir. Para o efeito terá contribuído a proverbial arte de bem acolher/receber do Porto, Rob Goodwin fez questão de salientar isso mesmo num interlúdio entre temas, onde enalteceu a simplicidade do conceito da promotora Mr. November e d’Os Suspeitos ‘e do gosto da música pela música’ que os move e que os The Slow Show tanto apreciaram nesta sua prestação pioneira em Portugal.

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Talvez os comparem aos Elbow, aos Tindersticks ou aos The National e podem mesmo reconhecer-se neles algumas hipotéticas influências dessas bandas de referência (o que a acontecer só pode ser um motivo de orgulho), a verdade é que deslindamos nos The Slow Show uma identidade bem vincada e carismática na forma de fazer música: quer no palco, quer na atitude. Por falar nisso, talvez ‘os desaparecidos’ A Jigsaw, banda infelizmente desaparecida de Coimbra, tal como o ‘luso-persa’ Mazgani gostassem de ter cá estado. Fica para a próxima (e que a mesma não tarde).

Texto: João Arezes

Fotografias: Pedro Brás Marques

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