Meo KALORAMA 2022 – 2 de setembro

"Baby, we both know that the nights were mainly made for saying things that you can't say tomorrow day"(Artic Monkeys | "Do I Wanna Know?")
Meo KALORAMA 2022 – 2 de setembro

O dia ensolarado convida a ir cedo para o parque, vaguear por entre as árvores e escolher um lugar elevado para apreciar a paisagem e as pessoas. O palco principal é muito bonito, Aka Corleone foi feliz nos desenhos e nas cores. A inexistência de distrações e a disposição discreta dos pontos de alimentação confere dignidade ao espaço e ao evento. Hoje é o dia dos jovens que cresceram a correr atrás dos versos de Fluorescent Adolescent. Gente nova, radiante e radiosa, que se vai sentando o mais à frente possível, e que dentro de algumas horas preencherá cada átomo de solo.

As 17:00 horas The Lathums trazem a nostalgia vintage do som Manchester ao palco Meo. Alex Moore, Scott Concepcion, Johnny Cunliffe e Ryan Durrans cultivam uma onda oitenteira paradoxal ao título do álbum de estreia, How Beautiful Life Can Be. Um rock viciante de guitarra mid tempo, que equilibra euforia e melancolia nas doses certas, e recorre a as letras vagas e despretenciosas. A voz de Alex Moore acolhe os recém chegados com familiaridade reconfortante.

Às 18:00 horas o trovadorismo das Golden Slumbers emana do palco Colina enquanto o punk das Crawlers agita o palco Futuro e o pó circundante. O quarteto de Liverpool emergiu do coma pandémico com uma gravação de estreia que tem conquistado território e deixado um rasto de salas esgotadas. Com uma imagética provocatória, as Crawlers destilam rebeldia angustiada carregada de mensagens intervencionistas. O feminismo de “Monroe” (Crawlers/2021) o ativismo político de ‘Statues’ (Crawlers/2021), o sentimentalismo de ‘Come Over (again)’ (Crawlers/2021) e mais uma mão cheia de temas avulsos fazem as delícias de uma legião de adolescentes em busca de ideais.

Crawlers | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Já tinham dado as 19:00 horas quando Paulo Furtado, Catarina Henrique aka Katari, João Cabrita e Filipe Rocha conjuram The Legendary Tigerman no palco Meo. Rock puro e duro, elevado a outra dimensão pelo aroma a Morphine do potente saxofone de Cabrita. O couro preto de Paulo Furtado poderia camuflá-lo com os panos que cobrem o fundo, mas fervilha numa energia mais forte do que ele próprio, que é expelida em riffs, refrões, corridas, saltos, pontapés, e tudo o que lhe apetece fazer, cantar, dizer e gritar. Abre em grande estrondo com The Sadest Girl On Earth (Misfit/2018) e vai às origens buscar Naked Blues (Naked Blues/2002). Em Walkin’ Downtown (Masquerade/2006) canta em coro com o saxofone, enquanto Katari arreia nas peles e pratos sem dó nem piedade. Dance Craze (True/2014) recria um duelo entre o metal e as cordas nas mãos dos dois músicos que, de joelhos e cócoras, dão tudo o que têm. O carisma irrequieto de Paulo Furtado não deixa ninguém indiferente. “Quem é que está cheio de amor aqui? Eu estou cheio de amor, a rebentar de amor.”. Segue-se o tropel de Motorcycle Boy (Misfit/2018). The Saddest Thing to Say (Femina/2009) conta com a colaboração virtual de Lisa Kekaula, e Katari assume a voz na reinterpretção de These Boots Were Made For Walkin’ (original de Nancy Sinatra). Para a rampa final ficam Fix of Rock & Roll (Misfit/2018) e 21st Century Rock & Roll (True/2014), esticados até ao limite entre subidas ao bombo, descidas do palco, correrias pela ala central da plateia, instrumentos pelo ar e crowdsurfing. Paulo Furtado é um turbilhão que arrasta a audiência para dentro de músicas simples e diretas, sem pedir licença nem desculpa. É o nosso rei do rock & roll.

The Legendary Tiger Man | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Só uma parte do público dispersa para os concertos das 20:00 horas. O restante senta-se no espaço entre as grades e a cabine de som, e as hordas t-shirts temáticas vão-se estendendo ao longo das colinas laterais, a guardar lugar para os cabeças de cartaz. Enquanto Jesse Ware ocupa o palco Colina, Alice Phoebe Lou dá um ar da sua graça no palco Futura. A folk açucarada da sul africana continua tão suave como ela própria, e vai-se desenrolando entre comentários pueris e manifestações de assombro pelas cores do céu à medida que o sol se põe. Imune à idade e aos artifícios, é um refresco apetecível num fim de tarde de verão.

Alice Phoebe Lou | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Às 20h45 os Blossoms ocupam o palco Meo com a sua pop mainstream onde não faltam instrumentos. Cumprem a missão de banda de abertura para o que está para vir com profissionalismo britânico, sem sobressaltos nem surpresas.

Blossoms | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Uma hora depois, Róisin Murphy, acompanhada por um quarteto de músicos, sobe ao palco Colina. A ex-Moloko é ela própria uma instalação visual, que extravasa a sonoridade eletro art pop. Sob a égide do mantra “I want something more” entrega-se a oito canções, cada uma ilustrada por uma multiplicidade de mudanças de visual e vestuário em palco, extravagantes mas sem resquícios de vulgaridade. Something More / Let Me Know, Incapable (Roisin Machine/2020) Overpowered (Overpowered/2007) e We Are The Law (Crooked Machine/2021) revelam o esplendor e o groove do funk, soul e house da irlandesa. Intercala-as com The Time is Now (Moloko), Forever More / Cannot Contain This (Moloko) e o hit Sing It Back (Moloko), repescadas ao dueto dissolvido e acompanhadas pelo coro da audiência. Experiente e atenta, Róisin vai gerindo o impacto emocional e a interação com mestria, cativando quem sabe ao que vem, quem não sabe mas vem por bem, e quem estava distraído mas acaba por se aproximar para a ouvir. Consagra-se como uma surpresa estética para alguns e uma confirmação artística para outros.

Roisin Murphy | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Às 22:00 Afonso Cabral, David Santos, Pedro Branco, Salvador Menezes, João Gil e Tomás Sousa levam a excelência dos You Can’t Win Charlie Brown até ao palco Futura, onde o primeiro haverá de regressar mais tarde para ajudar ao fim de festa.

40.000 pessoas estão nas trincheiras do vale principal à espera da décima primeira badalada para rever os Artic Monkeys. Alex Turner, Jamie Cook, Nick O’Malley e Matt Helders não se fazem rogados, e entram com sorrisos e braços levantados a agradecer as ovações, numa interação estranha à sua fleuma habitual. Turner regressou ao visual casual, e apesar de visivelmente cansado a maturidade assenta-lhe bem, dá-lhe uma leveza que noutras ocasiões lhe faltou. Abrem a todo o gás com Do I Wanna Know? (AM/2013), cantada em uníssono por um público em histeria beatleana. É o ponto de partida para ícones de duas décadas de discografia e para a antecipação do novo álbum. Os reforços de três músicos adicionais engordam o som, ocasionalmente libertam Turner da guitarra, e mantêm-no afastado das teclas. Brianstorm (Favourite Worst Nightmare/2007) atropela os pensamentos menos ágeis, e é seguida por Snap Out Of It (AM/2013), cujo refrão replicado por milhares de vozes deve ser audível de Santarém a Setúbal. Matam-se saudades de Crying Lightning (Humburg/2009) e da potente torrente narrativa de Teddy Picker (Favourite Worst Nightmare/2007). Potion Approaching (Humburg/2009) requer o resguardo de uns óculos de sol, que haverão de ser postos e removidos mais vezes. As guitarras endiabradas dão vida a The View From The Afternoon (Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not/2006) e a deliciosa Cornerstone (Humburg/2009) revela Turner a cantar melhor que nunca e uma coesão notória na banda. A partir de That’s Where You’re Wrong (Suck It And See / 2011) torna-se difícil descortinar quem está a divertir-se mais: se os músicos ou a audiência. Library Pictures (Suck It And See / 2011) é uma surpresa inesperada no alinhamento e Tranquility Base Hotel & Casino (Tranquility Base Hotel & Casino/2018) ganha uma mímica minimalista irónica que condiz com a letra e realça a subtileza refinada de “Mark speaking, please tell me how may I direct your call?”. Perguntas geram mais perguntas, e Why D’You Only Call Me When You’re High? (AM/2013) causa outra explosão de entusiasmo, com o parque a cantar de fio a pavio. I Ain’t Quite Where I Think I Am (The Car/2022) é a balada escolhida para a antestreia do disco em gestação, escutada com atenção e incentivada pelas lanternas dos telemóveis. Do Me a Favour (Favourite Worst Nightmare/2007) não soa nem remotamente a frete e From The Ritz To The Rubble (Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not/2006) não dá oportunidade a quem quer que seja de respirar. A adesão ao clássico I Bet You Look Good On The Dancefloor (Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not/2006) move placas tectónicas com potencial para causar fendas nos antípodas. Turner ginga o corpo ao ritmo da sincopada Knee Socks (AM/2013), e da sensualidade de 505 (Favourite Worst Nightmare/2007) emerge um surto de delírio apocalíptico. Os músicos abandonam o palco mas a imagem do refrão fica a pairar na atmosfera: “In my imagination you’re waiting, lying on your side, with your hands between your thighs”. Para o encore há um triplo bónus: One Point Perspective (Tranquility Base Hotel & Casino/2018) em versão teatralizada e fora de tom, Arabella (AM/2013) já sem fôlego, e o hino do adeus, R U Mine? (AM/2013), cantado em uníssono pela Bela Vista inteira e bairros circundantes. Contas feitas, os temas rápidos pareceram mais acelerados, os lentos mais arrastados, e todos ficaram a ganhar. Os Artic Monkeys ascenderam a um estrelato merecido e trans-geracional que lhes permite tocar o que lhes apetece, como lhes apetece, e lhes dá liberdade para se soltarem, interagirem e, principalmente, para se divertirem.

Artic Monkeys | Foto © Meo Kalorama 2022

Pela 01:00 uma pequena orquestra liderada por Bruno Pernadas, com a colaboração de Afonso Cabral, tenta fazer de carro vassoura no palco Futura, mas não há quem arrede pé, porque a música a que se entregam é boa demais, e induz a sentar em vez de abalar. Tecem um pachwork de sons que cose o jazz à pop, a folk ao rock, e a eletrónica ao afrobeat, com uma elegância irresistível.

O segundo dia do Meo Kalorama foi dedicado a diferentes facetas do rock, com The Legendary Tigerman a firmar créditos, Róisin Murphy a consagrá-los e os Artic Monkeys a superarem 40.000 expectativas.

TEXTO: Ana Cristina Carqueja
FOTOS: Teresa Mesquita

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