Meo KALORAMA 2022 – 3 de setembro

"Just want to stay in the business of making you happy, well, I'm just waiting for you, waiting for you, waiting for you." (Nick Cave & The Bad Seeds | "Waiting For You")
Meo KALORAMA 2022 – 3 de setembro

O Meo Kalorama 2022 tem um enquadramento geográfico peculiar, empoleirado numa pitoresca colina que rasga um tecido residencial urbano degradado. A escalada até ao pórtico encolhe à medida que a desconfiança do primeiro dia dá lugar ao encantamento do segundo e ao deslumbre do terceiro. É delicioso contemplar o recinto nu, antes de se converter num tapete de Arraiolos de um público que hoje se situará na faixa etária mais elevada de quem distingue o requinte sonoro.

As honras de abertura deste último dia são delegadas em Tiago Bettencourt, que às 17:00 se instala no palco principal com os músicos que o acompanham. Com a serenidade e simpatia que lhe são características entoa temas com os quais tem enriquecido o cancioneiro português – Dança (Rumo ao Eclipse/2019), Se Me Deixasses Ser (A Procura/2018), Maria (Do Princípio/2014), O Jardim (O Jardim/2007), O Jogo (O Jardim/2007) e Morena (Do Princípio/2014). Acrescenta-lhes as incontornáveis A Carta (original de Toranja) e Canção de Engate (original de António Variações), enternecendo todos os que, sentados ou em pé, desfrutam da sua presença. Trovador por vocação, Tiago Bettencout é sempre uma aposta ganha de talento, sobriedade e comunicação.

Tiago Bettencourt | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Às 18:00 o código de barras 560 alastra-se aos restantes palcos: o duo Grand Pulsar articula a guitarra acústica e bateria no cantinho Futura e os Moullinex levam a eletrónica à encosta Colina. Dois dias depois de ter estado no mesmo palco, à mesma hora, com os Xinobi, Luís Clara Gomes regressa em formato DJ set, com 3 mesas, 1 percussão e os contagiantes ritmos dançáveis de um dos mais interessantes projetos musicais do género. Internacionalmente requisitados por clubes, salas e festivais, os Moullinex são líderes na música eletrónica instrumental de dança. Seja em formato de banda ou de bolso nunca se desviam da excelência. Luis trabalha a mesa com ciência, lê muito bem o público, interage na medida certa, e espalha bem estar pelo solo espezinhado.

Moullinex | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Uma hora depois os Ornatos Violeta calam todos os sons para se fazerem ouvir. Manel Cruz, Nuno Prata, Peixe, Kinörm e Elísio Donas são um fenómeno inexplicável: gravaram dois álbuns em 1997 (Cão) e 1999 (O Monstro Precisa de Amigos), descontinuaram a banda para prosseguirem carreiras a solo, e 20 anos depois ressuscitaram-na projetando esses discos para a estratosfera. O alinhamento é quase integralmente extraído do segundo.“São Coisas bonitas”, anuncia Manel, antes da balada que cresce ao colo das guitarras. O soluçar sincopado de Deixa Morrer é seguido por uma extended version scroll do scroll do rol de verbos de Para Nunca Mais Mentir. Tanque começa em modo de spoken word e evolui para uma rockalhada digna da véspera, com Kinörm a imprimir-lhe um ritmo alucinante e a antecipar-se no ritual de despir a t-shirt. Nem todos os dias são um Dia Mau, e este claramente não é, porque Manel engana-se nos primeiros versos, tropeça numa interjeição – “f@@@@ tudo… vá lá, peixinho, outra vez” – e música recomeça, tão imperturbável como num ensaio à porta fechada, desencadeando uma torrente de gargalhadas. Manel pula e salta ao longo do palco como se ninguém estivesse a olhar e descarta também a sua t-shirt, enquanto Kinörm atira baquetas para as primeiras filas. A vitalidade da guitarra de Peixe lidera Pára de Olhar Para Mim e o quinteto portuense faz a festa, interagindo entre si com uma cumplicidade hipnotizante. Não são os Ornatos que tocam O.M.E.M., é a música que os toca a eles e toma conta deles. Manel deixar-se desabar de costas, num mergulho de fé sobre o público, que o passa de mão em mão até o devolver ao estrado. Emocionante. A intimidade de Nuvem adensa a carga afetiva, sobretudo quando Manel e Peixe tocam frente a frente, juntando as duas cabeças como quem sela um pacto. Ouvi Dizer é um hino que une quem cresceu ao som dos Ornatos a quem os descobriu depois da ressurreição, e adquiriu um novo sentido depois dos últimos dois anos: “Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã, e eu tinha tantos planos p’ra depois”. O romantismo de Noticias do Fundo é exacerbado pelo chorar do teclado de Elísio e por mais um magnífico diálogo de cordas entre Manel e PeixeMeu desejo é morrer na paz do teu beijo sem futuro, é lutar por um beijo mais puro.” Os créditos vocais da inevitável Capitão Romance são partilhados com Kinörm e duplicados pelo coro dos espectadores. Chaga cria a apoteose final, mas afinal ainda há tempo para mais duas: a valsinha suplicante “Há-de Encarnar” e a festivaleira “Pára-me Agora”. A música dos Ornatos Violeta rejuvenesceu, está tão atual como se tivesse acabado de ser composta, e os cinco são uma tempestade perfeita, muito mais poderosa do que a soma de cada um deles. Uma banda grandiosa que se agiganta pelo carisma do seu líder.

Ornatos Violeta | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Na hora de ponta das 20:00 o exotismo dos Peaches ilumina o palco Colina e a diversão dos Meute extravasa o palco Futura.

Nick Cave & The Bad Seeds abriu a época dos festivais de verão às 21:00 do primeiro dia do Nos Primavera Sound 2022 e encerra-a à mesma hora do último dia do Meo Kalorama 2022, despedindo-se da digressão europeia. Cerca de 3 meses e 300 km de distancia separam estas duas vindas do deus dos cantautores à nossa terra acompanhado pelos apóstolos Warren Ellis, Jim Sclavunos, Thomas Wydler, Martyn P. Casey, George Vjestica e Larry Mullins e um glorioso trio de gospel. O alinhamento é quase decalcado, mas o local é outro, o público é outro, o momento é outro, as sensações são outras, e Nick Cave é heraclitiano: não se banha duas vezes na mesma água de um rio que corre. Por isso o espectáculo é outro. Abre com o trovão de “Get Ready For Love” (Abattoir Blues-The Lyre of Orpheus/2004) e lança-se pela escadaria que liga o palco à plataforma junto às grades, reclamando da distância e da lonjura a que fica da banda. Entrega-se ao ritmo serpenteado de There She Goes My Beautiful World (Abattoir Blues-The Lyre of Orpheus/2004) e ao potente hino “From Her to Eternity” (From Her to Eternity/1984). Sobe e desce num rodopio entre o passadiço e o estrado, conversando com uns e outros, recebendo camisolas, bandeiras, peluches e presentes, e distribuindo autógrafos. Não canta para uma massa amorfa mas para mim, para ti e para cada um de nós individualmente, fixando-nos com o olhar. Num destes momentos de interação descobre uma Paula que faz anos e, inesperadamente, dedica-lhe O’ Children (Abattoir Blues-The Lyre of Orpheus/2004) – “It’s your birthday? Fuck… I don’t know what to say… happy birthday! This is for Paula, it’s her birthday”. Apresenta a narrativa de Jubilee Street (Push The Sky Away/2013), como uma “love story that went terribly wrong” e “Bright Horses” (Ghosteen/2019) como uma “beautiful song”. Senta-se ao piano para recordar “I Need You” (Skeleton Tree/2016) perante um silencio sepulcral, que se mantém ao longo de “Waiting For You” (Ghosteen), talvez uma das mais românticas canções de amor da história da música. Narra parcelas atribuladas da epopeia de Elvis em Tupelo (The Firstborn is Dead/1985) e atira-se à montanha russa de Red Right Hand (Let Love In/1984), que vai esticando uma e outra volta, para tocar as mãos que se estendem e contemplar os rostos que se erguem. O clímax de “The Mercy Seat” (Tender Pray/1988) é garantido, mas parece crescer em intensidade, como se a cada interpretação chegasse mais longe e subisse mais alto. “The Ship Song” (The God Son/1990) ondula pelos recortes acidentados da linha do horizonte e “Higgs Bossom Blues(Push The Sky Away/2013) vagueia entre evocações oníricas de Tuluca Lake e da African Savannah. Vai buscar o coro de gospel e condu-lo até à plateia para animar “City of Refugee” (Tender Prey/1988) – “See?! I told you it was fun down here!”. Termina com uma diabólica versão de “White Elephant” (Carnage/2021), rematada pelo clamor fervoroso de entrada no reino dos céus. Soberbo. Todos abandonam o palco, e Cave retorna, sozinho ao piano, para dedicar “Into My Arms” (The Boatman’s Call/1997) a Beatriz Lebre, em resposta a uma carta da mãe nos “red hand files”. A banda retoma os seus postos e suga o vale para dentro de “Vortex” (B Sides & Rarities), para em seguida o pacificar com Ghosteen Speaks (Ghosteen/2019). The Weeping Song (The Good Son/1990) é uma despedida com sabor a bonus track de quem resiste a levantar-se do aconchego da cama. Antes de sair, Cave reúne todos os músicos na plataforma junto ao público para um agradecimento emotivo ao alcance dos braços esticados. Uma mistura rara de poeta e animal de palco, elevado à estratosfera por uma banda exímia que lhe conhece o pulsar sem auscultação, na qual Warren Ellis desempenha o papel que Conan Doyle construiu para Dr. Watson. A força gravitacional que exerce confunde o curso do tempo: passaram duas horas sem ninguém reparar, porque god is in the house.

Nick Cave & The Bad Seeds | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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Não há grande receptividade para o que quer que seja a seguir ao torpedo emocional que Nick Cave & The Bad Seeds largou em Chelas, mas às 23:15 Zaz sopra uma delicadeza jazistica na reentrância Futura e Chet Faker em formato DJ set aposta nos graves para anestesiar a ladeira Colina.

Chet Faker | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

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No after hours das 00:45 o minimalismo estético do duo de eletrónica dançável Disclosure converte o vale principal numa pista ao ar livre, e pela 01:00, no palco Futura, o Club Makumba de Tó Trips encerra formalmente a primeira edição do Meo Kalorama.

O balanço é quantificável e qualificável: as contas ficam a cargo da organização, patrocinadores e parceiros, a apreciação cabe a todos quantos tiveram oportunidade de participar. O primeiro ponto positivo é o local: a autenticidade do bairro de Chelas imprime uma dimensão humana ao festival. O segundo é o recinto despido de artefactos de feira popular, de distrações e da sobre exposição de marcas, para se dedicar, em exclusivo, à música. O terceiro é o line up, que convocou grandes nomes da musica portuguesa – Rodrigo Leão, Fred, The Legendary Tigerman, You Can’t Win Charlie Brown, Bruno Pernadas, Tiago Bettencourt, Moullinex, Ornatos Violeta, Club Makumba – ícones da música internacional – James Blake, Kraftwerk, The Chemical Brothers, Artic Monkeys, Roisin Murphy, Nick Cave & The Bad Seeds, Chet Faker, Disclosure. O quarto é a distribuição das bandas pelos dias, pelas horas e pelos palcos, sem exceder duas sobreposições por dia, limitadas aos palco secundários, conjugando preliminares estimulantes – Fred, The Legendary Tigerman, Ornatos Violeta – cabeças de cartaz aliciantes- James Blake, Artic Monkeys, Nick Cave & The Bad Seeds – finais estimulantes – The Chemical Brothers, Disclosure – e after hours apelativos – Moderat, Bruno Pernadas, Club Makumba.

O Meo Kalorama veio para ficar, já tem edição anunciada para 2023 a 31 de Agosto, 01 e 02 de setembro e quem aqui esteve iniciou a contagem decrescente para voltar.

TEXTO: Ana Cristina Carqueja

FOTOS: Teresa Mesquita

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