MONO no Hard Club – da doce melancolia ao explosivo êxtase

A“Sereia de Negro”, A.A. Williams, encantou(-nos) antes do espectáculo dos japoneses.

Foi com uma pontualidade britânica que A.A. Williams se apresentou em palco no Hard Club: exactamente às 21h00, com toda a precisão nos ponteiros, a artista e sua banda fizeram questão de respeitar o horário previsto para o começo da actuação. O público curioso e expectante brinda os músicos com aplausos calorosos e embora uma parte significativa esteja ali para ver os Mono, até esses vão ficar rendidos à prestação de Williams.

A “Sereia de Negro” surge imersa em fumos, esfíngica, a ostentar uma “guitarra-relâmpago” e avança destemida para “For Nothing” (As the Moon Rests, 2022), tema recente que soa com intensidade. Um baixo, uma guitarra para além da que a líder tem em mãos e uma bateria cuja sonoridade é impositiva marcam a música inicial, as derivações instrumentais são também elas matizadas por uma atitude enérgica, testemunhadas por luzes azuis.

Prossegue com “Love and Pain” (Forever Blue, 2020), música em que o shoegaze impera. E o canto encanta e enleia, a fazer jus ao epíteto de ‘Sereia’ que lhe atribuímos. Em “Evaporate” (As the Moon Rests, 2022) há fios de luzes que se esbatem nas costas da vocalista e criam um belo efeito de projecção de restos de feixes e brilhos. O guitarrista muda de vez em quando para os teclados, o baixo acompanha e a bateria afirma-se certeira. “Belong” (A.A. Williams, 2019) insinua-se com suavidade, é uma canção mais melodiosa e são perceptíveis as inflexões de voz.

A audiência dá sinais de estar ser conquistada pela linha intensa da sonoridade geral, A.A. Williams revela facetas de devoção a Chelsea Wolfe, PJ Harvey e a Emma Ruth Rundle, sem deixar de ser ela própria e afirmar-se com personalidade no estrado. Com “Golden” (As the Moon Rests, 2022) chega um precioso auxílio na expressão coral com os pares da banda a fazerem segunda voz no refrão. “Control” (A.A. Williams, 2019) mostra-nos a face cálida da voz da britânica e tem um solo de guitarra prolongado pelo meio, que é de se lhe tirar o chapéu. A voz, essa galga etérea pelo espaço. Da mesma beleza musical na obscuridade, comungamos em “Wait” (Forever Blue, 2020) e, sim, derretemo-nos com “Melt (Forever Blue, 2020) tema com o qual a prestação da artista e da banda culminam em alta, mas A.A. Williams haveria de chegar bem ‘sólida’, mais adiante, no momento se juntar aos Mono para tocarem ensemble “Exit in Darkness”. Deixou lastro de perfume melódico, de generosa fragrância musical, este pequeno legado de 45 minutos de death soul, como a britânica intitula a música que concebe, faz augurar um futuro audaz para a jovem “Sereia de Negro”.

No compasso de espera pelos nipónicos Mono (excepção feita ao baterista Dahm Majuri Cipolla que é norte-americano, o substituto de Takada desde 2018), que durou para lá de uns 20 minutos, comentava-se o excelente desempenho de A.A. Williams e da sua brigada de músicos. Venerados por um nicho de seguidores, os Mono já visitaram terras da Invicta, pelo menos, em cinco ocasiões a contar com a presente: em 2004, na apresentação seminal, foi o mítico bar O Meu Mercedes é Maior que o Teu, sito à Ribeira, quem acolheu os japoneses. Regressaram em 2010 e tocaram no Auditório da Fundação de Serralves. O Hard Club foi convertido em anfitrião da banda em 2013 e em 2015 e em 2022, dá-se este regresso após dois adiamentos sucessivos motivados pela pandemia.

Às 22h15 entram finalmente no estrado para gáudio de uma sala esgotada há algum tempo. A Pilgramage of the Soul Tour, homónima do décimo primeiro álbum da banda, chegava finalmente a Portugal. “Riptide” é o tema pioneiro, pertence ao derradeiro registo, e começa de mansinho, com TakaakiraTakaGoto à direita do palco numa das guitarras e Hideki Yoda” à esquerda, na outra. Ao meio, a pendular Tamaki Kunishi no baixo e naturalmente ao fundo Dahm Majuri Cipolla, na bateria (vistos a partir da plateia de pé). Adivinhava-se uma tormenta logo a seguir ao período mais melódico da génese musical: a agitação capilar está ao rubro no palco face ao ritmo, a bateria é meta-marcial nesta altura e os disparos de luz agem em conformidade.

Depois do terramoto sonoro, as coisas acalmam de novo e é assim que o público tira a bilhete para o embarque em “Imperfect Things”. A meio do tema Dahm percute de forma cadenciada a bateria, e as guitarras de Taka e Yoda insinuam-se com um som encorpado e a espaços áspero, enquanto Tamaki brande o baixo, com estilo e em pose de braço do instrumento a 45 graus.

Depois de duas músicas de Pilgramage of the Soul, surge no alinhamento Nowhere Now Here”(2019), o tema que dá o nome ao penúltimo álbum da banda. A paisagem harmoniosa de sons encontra uma direcção distinta e por oposição encontra o caminho certo para uma cavalgada sonora. É quase sempre assim quando se trata post-rock, sobretudo executantes tão ilustres do género musical como os que estão em cima do palco. Da melancolia doce depressa se passa para o êxtase explosivo.

O mergulho de sedução neste binómio musical situado entre uma planície melódica e um vulcão em erupção rítmica cativa o público. “Innocence” (também do derradeiro Pilgramage of the Soul, 2022) é a prova disso mesmo: Taka mais parece um exímio praticante de afundanços da NBA, mas desta feita nas cordas; Yoda não o faz por menos, ora parecendo circunspecto, ora agitando a anatomia de forma paralela ao seu par na guitarra; Tamaki é uma espécie de mastro que segura a tempestade no seio da jangada musical. Dahm revela toda a competência no manuseamento das baquetas, Takada (nome curioso para um baterista) tem sem dúvida um substituto à altura. Os orgasmos sonoros sucedem-se e são múltiplos e a toada é épica quando na forja está “Sorrow” (Nowhere Now Here” 2019) com aquele início de novelo rendilhado na guitarra de Taka, sempre complementado por Yoda, em fluxo sonoro crescente como uma corrente cristalina até ao zénite, onde o todo instrumental se funde numa energia poderosa que resulta da comunhão.

Em “Halcyon” (Beautiful Days)”/(Walking Cloud and Deep Red Sky, Flag Fluttered and the Sun Shined/2004) Yoda está já de pé. O som (es)corre límpido e melódico, quase orquestral e é um prenúncio de final de concerto, não sem que antes um turbilhão volumétrico se abata sobre os fiéis. Com “Ashes in the Snow” (Hymn to the Immortal Wind, 2009) a prestação dos “filhos do sol nascente” finda em alta, mas o público exultante reclama um encore.

Taka agradece à audiência e a epifania reserva ainda “Exit in the Dark” o registo de criação partilhada com A.A. Williams (2020), com a cantora a vir ao palco e uma vez mais encantar os presentes, interpretando o tema com os Mono.  E é quase em plano de recuo às origens que “Com(?)” (One Step More and You Die, 2002) fecha o pano a mais uma actuação imaculada da banda nipónica no Porto. O RCA Club em Lisboa há-de confirmar quão incríveis se tornam estes músicos quando alcançam um palco.

João Arezes

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