Recordar é (re)viver… no M.Ou.Co

Blood Red Shoes ofereceram(-nos) o concerto mais electrizante do mês.

Após um período áureo dos Blood Red Shoes, que na essência em Portugal corresponde sobretudo às passagens pelas edições de 2009 e 2015 do Festival Paredes de Coura (ainda que tenham andado por cá mais recentemente, em regime pré-pandémico, no ano de 2019) a banda britânica, nascida da gesta dos músicos Laura Mary-Carter e Steven Ansell, em Brighton, fez nova visita a território nacional, a convite d’Os Suspeitos. A dupla, reforçada com mais dois músicos, ainda que durante grande parte do concerto a prestação estivesse apenas a cargo de Steven e Laura, deixou sangue, suor e lágrimas (e também algumas cãibras manuais ao baterista) no palco do M.Ou.Co., na sexta-feira 10 de Setembro de 2022.

O concerto serviu como prova de que os Blood Red Shoes estão bem e recomendam-se ao fim de 18 anos de existência. O desempenho foi, há que dizê-lo sem paliativos, e a todos os títulos, demolidor! Se a banda beneficiasse de um apoio do nosso actual governo para a energia despendida nesta façanha musical, não lhe chegariam dez vezes o valor atribuído a cada português, pois 1.250 euros seriam escassos para a descarga eléctrica digna de uma barragem.

A pontualidade inglesa é cumprida quase a preceito. São 21h32 quando o tema “Elijah” (Get Tragic, 2019) desfila enérgico na abertura do espectáculo, a malhação na bateria é desenfreada e os riffs, tão característicos, a jorrarem da guitarra de Laura fazem o resto, com o auxílio dos sintetizadores. O ambiente está cálido, percebe-se, mas a tendência é para que a temperatura suba para valores bem mais elevados.

A camisa azul de Steven e o cabelo bem alourado com um certo pendor à Boris Johnson, mas bem mais alinhado, contrastam com as luzes vermelhas que se espalham por todo o estrado. Laura, por seu turno, mostra-se plena de sensualidade roqueira, a ostentar o cabelo comprido escuro e a vestir uma blusa em tons mais negros, com alguns motivos esparsamente coloridos no padrão, uns collants, uma mini-saia e umas botas de cano alto que lhe compõem o figurino. “Bangsar”, do mesmo álbum da precedente, solta-se e toda a gente a reconhece, há palmas, e um canto quase em uníssono do público que acompanha os músicos. As expressões faciais de Steven a bater nos pratos e na tarola são no mínimo curiosas. E o primeiro tema do derradeiro registo (Ghosts On Tape, 2022) a desfilar é “I’m Not You”: a batida na bateria continua desenfreada, a voz de Steven sai-lhe verdadeiramente das guelras, com os coros de Laura a suavizarem ligeiramente a toada.

Howl” (Get Tragic, 2019) brota sob o manto vocal de Laura, mas a sonoridade é dançante, há alguma electrónica a soar e muita gente… a suar! Com o recuo a 2008, pela via de “It’s Getting Boring by the Sea” (Box of Secrets/2008) a bateria permanece cadenciada e a voz de Laura marca o tom, com a guitarra de igual forma a ditar o ritmo. E se a atmosfera já estava ao rubro, quando Steven incita o público a participar, as coisas ficam no ponto. “Don´t Ask” (Fire Like This, 2010) é uma cavalgada elegante a duas vozes, com interjeições rítmicas na bateria e na guitarra. Com o auxílio audível por parte dos sintetizadores e do baixo. Steven continua com as expressões bizarras estampadas no rosto à medida que canta. Há um duelo final que as luzes amarelas e azuis testemunham. Em “Light It Up” (Fire Like This, 2010) a temperatura está totalmente em brasa e o som fere positivamente, a intensidade do rock praticado é de tal sorte que alguns, poucos, é certo, já mudaram de coordenadas na sala.

É preciso refrear o calor e “Cold” (In Time to Voices, 2012) surge em boa altura, Steven e Laura incentivam as palmas sincopadas da audiência, a guitarra é ácida e a bateria teima em não se refrear. As vozes estão a casar num grito de prece feito canto. E o mesmo acontece em “Lost Kids” (In Time to Voices, 2012). “This is Not for You” (Box of Secrets, 2008) possui aquele ritmo curioso no qual embarca a voz de Laura, prosseguindo em ritmo frenético até ao final já com a colaboração na voz por parte de Steven.

An Animal” (Blood Red Shoes, 2014) é o tema que se segue no alinhamento. Soa a rock puro e imaculado quando as palavras saem das bocas e a guitarra de Laura parece expelir faíscas a partir das cordas. E com “Black Distractions” (Water, EP/2012) acentua-se a revisitação de alguns dos melhores temas da banda. “On the Hook” irrompe de igual sorte agreste na sala que esgotou para ver os de Brighton. E é com “Murder Me” (Ghosts On Tape, 2022) que conseguimos percepcionar a elegância do diapasão que combina um rock solto e volumoso com uma espécie de electrónica grunge mais afirmativa. E isso sente-se neste trilho perseguido com Ghosts On Tape, o motivo principal da digressão, por mais que no palco o alinhamento tenha uma dose notória de registo retrospectivo.

O último fôlego do espectáculo reserva-nos uma vaporosa Laura no canto de “Eye to Eye” (Get Tragic, 2019), o mesmo sucede com a deriva para “Sucker” (Ghosts On Tape, 2022), temas em que a dimensão vocal se releva e a vertente instrumental serve como envolvência, sem nunca estar em segundo plano. Como se sabe, isso seria difícil de suceder com o duo. E é com a muito bem esgalhada “God Complex” (Alternate Versions/EP) que a dupla antecipa um final a caminho da glória com “Morbid Fascination” (Ghosts On Tape, 2022). São 22h47 e tudo parece acabar, mas o público ficou a namorar uma certa histeria coletiva que se justifica pelo notável desempenho da parelha e (a espaços) dos seus dois músicos-suporte.

A casa ainda não veio abaixo e os alicerces são resistentes, mas a louça musical ainda não está toda partida. Isto apesar da breca manual de Steven e da face de Laura denunciarem nos rostos uma entrega devotada ao ofício de palco ao longo de quase uma hora e meia. No regresso para o encore, Steven estimula uma pequena revolução no espaço, incentivando o público ao frenesim e a acompanhar a banda. Com “I Wish I Was Someone Better” (Box of Secrets, 2008) primeiro e Colours Fade” (Fire Like This, 2010) depois, a epifania electrizante finda. Laura Mary-Carter e Steven Ansell têm classe e são músicos impressionantes e explosivos. E, por esta altura, uma vintena de músicas depois, ainda muita gente deve estar a segurar nas cristaleiras.

TEXTO: João Arezes

FOTOS: Pedro Brás Marques

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