JORGE PALMA não está só

O músico septuagenário deu, em solitário, o pontapé-de-saída a um projecto solene à escala mundial. Mas desengane-se quem pense que esteve ‘Só’.
JORGE PALMA não está só

No domingo 25 de setembro de 2022 passavam poucos minutos das 21 horas quando a plateia se levantou uma primeira vez das cadeiras (algo desconfortáveis) de um Palácio Baldaya completamente lotado. Jorge Palma entrou em palco algo nervoso numa noite bastante fria mas que cedo aqueceu. A causa não era para menos: estava sozinho em palco, apresentando um disco de forma integral no início da sua Antologia – projecto ambicioso e autêntico que visa revisitar todo o repertório do músico em seis espectáculos distintos.

Às primeiras notas de ‘Na Terra dos Sonhos’ sentiu-se no ar uma sincronia discreta, silenciosa mas entusiasmante. ‘Deixa-me Rir’, ‘Estrela do Mar’, ‘Bairro do Amor’ e ‘Frágil I’ deram continuidade a um autêntico recital que cedo parecia chegar ao fim. ‘’ e ‘A Gente Vai Continuar’ pareciam ditar o término de um concerto no mínimo invulgar. O disco ‘’ é, ele mesmo, invulgar pois foi gravado em solitário devido ao baixo orçamento disponível na altura, em 1991, e sem temas inéditos. Ele mostrou, a cru, músicas anteriormente gravadas. O facto de, volvidos mais de 30 anos, o disco passar com distinção na tarefa de ser apresentado ao ar livre (daí a escolha não ter recaído por uma sala mais clássica da capital) diz muito a respeito dos 50 anos de carreira que Jorge Palma ali comemorava. O músico abandonou o palco uma primeira vez depois de tocar uma sonata de Ludwig Van Beethoven.

Jorge Palma | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

O que parecia o fim fora apenas um recomeço. Havia um outro ‘’ a apresentar, feito de músicas avulso unidas na comunhão com os presentes. ‘Avec le temps’ (de Léo Ferré), ‘Canção de Vida (ou ‘Canção Devida’, nas palavras de Palma, fazendo jus aos 20 anos que a demorou a escrever para Carlos do Carmo), ‘Valsa dum Homem Carente’ (escrita por Carlos Tê), ‘Bird on the Wire’ (de Leonard Cohen) e ‘Disse Fêmea’ (escrita para a peça ‘Carta a uma Filha’, a primeira encenação de Manuel Cintra do dramaturgo Arnold Wesker datada de 1996 no Teatro Nacional D. Maria II) tiveram em ‘Portugal, Portugal’ o seu esplendor. Mas não o seu fim.

Jorge Palma | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

Jorge Palma fez-se convidado a voltar a palco uma vez mais. E o público fez-se fiel e sentou-se uma terceira vez, pronto a ter a sua alma ainda um pouco mais reconfortada, e até esclarecida pelas letras de Palma. Ninguém ali estava no ‘Lado Errado da Noite’, essa que finalizou com ‘Balada de um Estranho’ um espectáculo de quase duas horas do qual se podem retirar duas conclusões. Primeiro, mesmo tendo terminado o Curso Superior de Piano já quarentão, é difícil apontar outro mestre português que tão bem expresse os seus sentimentos e os dos outros através do talento pianístico. E, segundo, o quão sortudo é Portugal por ter um artista tão icónico a celebrar as suas bodas de ouro com a música. Assim haja mais “estrada para andar”.

A Antologia prossegue com quatro concertos no Teatro Tivoli BBVA (7 e 26 de Outubro e 1 e 8 de Novembro), culminando com o tão aguardado regresso dos Palma’s Gang. O reencontro terá lugar dia 19 de Novembro no Cineteatro Capitólio.

Alinhamento:

1. Com uma Viagem
2. O Meu Amor Existe
3. Terra dos Sonhos
4. Deixa-me Rir
5. Dá-me Lume
6. Essa Miúda
7. Canção de Lisboa
8. Estrela do Mar
9. À Espera do Fim
10. Bairro do Amor
11. Jeremias, O Fora da Lei
12. Frágil I
13. Dizem Que Não Sabiam Quem Era
14. O Fim
15. Só
16. A Gente Vai Continuar
17. Ludwig van Beethoven: Sonata (2º Andamento, Adagio)
18. Avec le Temps
19. Canção de Vida
20. Valsa dum Homem Carente
21. Bird on the Wire
22. Disse Fêmea
23. Portugal, Portugal
24. Passos em Volta
25. Lado Errado da Noite
26. Mifá
27. Balada dum Estranho

(Diogo Santos escreve de acordo com a antiga grafia.)

Galeria completa no

FOTOS: Teresa Mesquita
TEXTO: Diogo Santos

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