JORGE PALMA brilha num mar de estrelas

Jorge Palma voltou ao palco do Teatro Tivoli BBVA para apresentar uma das mais belas odes triunfantes de que a música portuguesa tem memória.

Com casa praticamente lotada como vem sendo habitual, o terceiro capítulo da Antologia de Jorge Palma começou com uma surpresa. The Nine Billion Names of God, o primeiro single do músico, foi o tema escolhido para dar o pontapé-de-saída. Numa noite onde o prometido era rever a discografia da primeira década de 80 de Palma, a escolha demonstrou que tão importante como saber onde estamos é saber de onde vimos e como chegámos até aqui. E, no final das contas, a essência desta viagem é mesmo essa.

A primeira parte do espectáculo contemplou Jeremias, o Fora da Lei’ na sua versão original, com ‘Cara d’Anjo Mau’ a seguir-lhe as pisadas, para satisfação de um público muito mais extrovertido e participativo que o da noite anterior. A primeira parte do concerto terminou de forma invulgar. Jorge Palma, que tem sempre as suas mãos ocupadas entre o piano e as guitarras acústica e eléctrica, estava despido em palco. Isto porque este recuperou Olá, Tenho Que Ir Andando (de “Asas e Penas”, 1984), tema onde brilha com alguns solos de… harmónica! O músico, claro, foi fiel ao tema e não teve medo de demonstrar o seu talento com um instrumento com o qual raras vezes o vemos.

Concerto de Jorge Palma da Antologia III, no Teatro Tivoli. FOTO TM

Sozinho em palco, Jorge Palma sentou-se ao piano para mostrar não só que já estava em paz com a sua garganta (que o havia afectado no espectáculo passado) mas também que ao longo desta viagem está cada vez mais confiante de si próprio. Prova disso foi Canção de Lisboa, que foi tocada num ritmo electrizante e na mais pura das perfeições, para delírio dos presentes que o presentearam com uma enorme salva de palmas no fim do tema. De seguida, este confessou que o seu filho mais velho era para se chamar Castor mas que o júri do registo civil não permitiu, tendo ficado Vicente. Desse episódio saiu o instrumental Castor (de “Asas e Penas”) ao qual se seguiu a subida ao palco de Vicente para juntos interpretarem O Meu Amor Existe (de “Acto Contínuo”, 1982) numa interpretação a piano de quatro mãos. Mas as surpresas estavam longe de ficar por aqui.

‘Razão de Estado’, música de “O Lado Errado da Noite” (1985), foi recuperada, seguindo-lhe o tema-título do seu álbum, num concerto ao qual estava cada vez mais difícil assistir sentado. Picado Pelas Abelhas, tema que ficou eternizado pelo Palma’s Gang (que se voltará a reunir por ocasião do fecho desta Antologia, nos dias 19 e 20 de Novembro 2022 no Cineteatro Capitólio) encerraria, à partida, uma noite que, para além de longa, já tinha preenchido o coração dos felizes contemplados espectadores. Mas Jorge Palma tinha mais um ‘mas’ na manga. O encore.

Concerto de Jorge Palma da Antologia III, no Teatro Tivoli. FOTO TM

O músico septuagenário voltou ao palco e, de luz apagadas, deu luz a Estrela do Mar (de “Asas e Penas”). Com a ajuda de um pequeno efeito cénico, a sala ficou coberta de um mar estrelas azuis, onde Palma continuou brilhando, cantando Balada dum Estranho (de “Acto Contínuo”) antes de surpreender o público mais uma vez. Jorge Palma chamou, então, Francisco Palma, o seu filho mais novo, ao palco. Se são raras as aparições deste seu prodígio em palco, já o seu talento é raro mas por transbordar qualidade. A estes juntou-se Vicente pouco depois, num momento belo, comovente. Ao fim de 50 anos continuar a poder fazer o seu ofício, esgotando salas e estando acompanhado dos seus descendentes deve ser uma sensação e uma emoção difíceis de colocar em palavras para Jorge Palma.

Concerto de Jorge Palma da Antologia III, no Teatro Tivoli. FOTO TM

A noite não demorou a terminar, com a banda toda em palco e o público na única forma possível: de pé. Na ausência de palavras para descrever esta noite, fica a certeza de que Jorge Palma vai continuar, pelo menos enquanto houver estrada para andar.

Alinhamento:

  1. The Nine Billion Names of God
  2. Há Muito Tempo
  3. Jeremias, o Fora da Lei
  4. Cara d’Anjo Mau
  5. Olá, Tenho Que Ir Andando
  6. Junto à Ponte
  7. Onde Estás Tu, Mamã? (Canção de Lisboa)
  8. À Espera do Fim
  9. Castor
  10. O Meu Amor Existe
  11. Lobo Malvado
  12. Razão de Estado
  13. O Lado Errado da Noite
  14. Mifá
  15. Deixa-me Rir
  16. Picado Pelas Abelhas
  1. Estrela do Mar
  2. Balada dum Estranho
  3. Ao Meu Encontro na Estrada
  4. Eu Estou Bem
  5. Cantiga do Zé
  6. Portugal, Portugal
  7. A Gente Vai Continuar

Jorge Palma volta ao palco do Teatro Tivoli BBVA na próxima terça-feira, dia 1 de novembro de 2022, para o quarto capítulo da sua Antologia. Serão revisitados os álbuns “Quarto Minguante” (1986), “Bairro do Amor” (1989) e “Jorge Palma” (2001). Na semana seguinte, a 8 de novembro de 2022, serão “Norte” (2004), “Voo Nocturno” (2007) e “Com Todo o Respeito” (2011) a terem o seu tempo de antena. A viagem termina com a supra referida reunião do Palma’s Gang a 19 e 20 de novembro de 2022, no Cineteatro Capitólio.

Texto: Diogo Santos

Fotos: TM

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