Um brinde aos XUTOS & PONTAPÉS

O Circo de Feras voltou a estar em cena, por ocasião da comemoração dos seus 35 anos. No final, ficou a dúvida entre os presentes se tinha realmente passado todo esse tempo.

Ainda nem se estava dentro do Teatro Tivoli BBVA, e já se percebia que a noite era muito especial. Entre várias caras conhecidas, de onde se destacava o Ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a entrada no local do espectáculo foi presenteada com um postal. A preto e branco com a foto que acabou por ser a capa do álbum que ali se ia celebrar. Mas a noite acabou por se pintar de várias cores, num arco-íris bonito e comovente. Muito comovente. Como Jorge Palma tem mostrado nos concertos da sua Antologia, tão importante como estar é mostrar como se chegou. E os Xutos & Pontapés abriram assim o espectáculo: revisitando as canções preponderantes da sua vivência no Rock Rendez Vous. A começar, ‘Esquadrão da Morte’ e ‘1º de Agosto’ para delírio de muitos fãs que já os acompanhavam nessa altura. ‘Conta-me Histórias’ acalmou os corações que já estavam com uma frequência cardíaca acima do normal. Mas a passividade trazida pela primeira balada da banda foi momentânea e corrompida à entrada de ‘Remar, Remar’. Para fechar o primeiro acto a banda de Gui, Kalú, João Cabeleira, Tim e Zé Pedro levou a palco o “7º Single”: ‘A Minha Aventura Homossexual com o General Custer’, ‘Sou Bom’ e ‘A Minha Casinha’ que, como no princípio da banda, não significava o fim do espectáculo mas sim que ele ia apenas a meio.

A banda saiu de palco por breves instantes e, o que se pensava ser um momento para assimilar a espectacularidade daquilo que se estava a viver, foi mais um momento para tentar ‘aguentar’ o coração. Zé Pedro invadiu o palco e falou do disco que, em seguida, se ia ouvir na íntegra. Apesar de serem imagens (relativamente) conhecidas visto que estão presentes no making of do DVD de comemoração de 20 anos de “Circo de Feras”, foi impossível esconder a emoção de uma saudade que teima em parecer novidade mesmo passados (quase) cinco anos desde o seu desaparecimento físico.

A banda voltou ao palco sob uma enorme chuva de palmas e consigo trouxe Tó Trips, um leque enorme de imagens de época e a roupagem mais fiel possível do disco que mudou a vida não só individual e colectiva dos membros da banda mas também do rock e da música escrita e feita em português. E isso implicou o repescar dos instrumentos da época: Kalú com a sua Ludwig, João Cabeleira com a sua Fender Stratocaster preta, Tim com o baixo e o amplificador Peavey Patriot e Gui, a espaços, com o saxofone soprano. Faça-se, então, a devida vénia à Diapasão (actualmente Sr. Piano), loja de instrumentos musicais que equipou não só os Xutos mas todos os músicos e aspirantes a músicos à época. Se o “Circo de Feras” foi o que ainda é e se o rock português cresceu e ainda está de boa saúde, a ela muito se deve.

Contentores’ abriu o segundo acto, seguindo-se o primeiro single do disco, ‘Sai Prá Rua’. Um tema de carreira que teve a “infelicidade” de ser incluído no único disco onde é impossível dar-lhe a devida atenção e valor. A viagem pelo álbum de 1987 continuou, hino após hino, chegando a ‘Vida Malvada’ e ao intemporal solo de baixo de Tim. “Foi a acreditar nessa mudança (referida por Zé Pedro na sua intervenção) que deixámos para trás a conotação de comercial e tentámos fazer algo diferente”, afirmou Tim. O resultado estava à vista. O público não aguentava nem mais um segundo de pé e levantou-se para cantar em uníssono o tema-título do LP aniversariante. Seria o fim de (mais uma) noite memorável do quinteto quadragenário?

A resposta foi um redondo não. Voltaram ao palco para um terceiro acto, repescando o melhor que a tournée deste ano teve e que, coincidência ou não, também é oriundo dos gloriosos tempos do e no Rock Rendez Vous. Kalú deu voz a ‘Morte Lenta’ e, logo depois, João Cabeleira deu a entrada ao último tema de um concerto que só podia ser à maneira dos Xutos & Pontapés.

Com os temas (mesmo aqueles que não eram tocados há mais uma década) e, especialmente, a banda tão viva fica a dúvida se passaram mesmo 35 anos desde o lançamento de “Circo de Feras”.

Enquanto a resposta teima em não vir, resta agradecer à banda o convite e a recepção no pós-concerto que se fez com uma boa conversa que culminou com um brinde que só podia ter sido feito… com o mais recente vinho da banda cujo rótulo foi desenhado brilhantemente por Maria Reis Rocha, uma das sobrinhas de Zé Pedro.

Um brinde à longa vida dos Xutos & Pontapés. Eles estão para durar. E Portugal agradece.

Alinhamento:

Acto I

1. Som da Frente

2. Esquadrão da Morte

3. 1º de Agosto

4. Conta-me Histórias

5. Remar, Remar

6. A Minha Aventura Homossexual com o General Custer

7. Sou Bom

8. A Minha Casinha

Acto II

1. Contentores

2. Sai P’rá Rua

3. Pensão

4. Desemprego

5. Esta Cidade

6. N’América

7. Não Sou o Único

8. Vida Malvada

9. Circo de Feras

Acto III

1. Morte Lenta

2. À Minha Maneira

(Diogo Santos escreve de acordo com a antiga grafia)

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