O mundo perdido dos THE CURE

Um bom concerto, sem falhas, pensado para agradar aos fãs de hoje, de ontem e de anteontem.
O mundo perdido dos THE CURE

Os britânicos The Cure trouxeram a sua “Lost World Tour” à Península Ibérica, passagem que esqueceu Portugal e se cingiu a Barcelona e Madrid. Foi precisamente aqui que a Imagem do Som teve oportunidade de assistir ao desfilar de quase três dezenas de canções que cobriram toda a história da banda, com destaque para os álbuns “Desintegration” e “Head on The Door”, sobrando ainda espaço para alguns temas novos.

Com o prévio aquecimento a cargo dos The Twilight Sad, foi à hora marcada que as cerca de quinze mil almas que preenchiam o enorme espaço do Wizink Center receberam, em euforia, aquela que é uma das bandas mais icónicas dos anos 80 do século passado. A atenção centrou-se imediatamente em Robert Smith, uma constante até à despedida. Ele é a “estrela da banda”, sabe-o e o público também. Daí que Smith tenha tido o cuidado de saudar, à vez, cada um dos cantos da casa, qual boxeur num ringue, antes do início do combate. E fê-lo sozinho, mesmo antes de arrancar, sintomaticamente, com a nova “Alone” e o desabafo inicial: “This is the end of every song that we sing”… Uma voz perfeita, clara e sem demonstrar qualquer esforço, proporcionou um começo suave, a que se seguiria o longo “Pictures of You”, engatado com “Closedown”, “A Night Like This”, “Lovesong” e um grande momento com “And Nothing is Forever”. Mas eis que o palco, composto por enormes écrans de vídeo, se pintou completamente de vermelho para receber “Burn” com a bateria de Jason Cooper a marcar o ritmo de forma implacável. Logo depois, o palco desapareceu debaixo do negro trazido por “At Night”, onde só esparsas estrelas cintilavam. A toada foi sempre morna enquanto os The Cure cruzavam por “A Fragile Thing”, Push”, “Play for Today”, “From the Edge of the Deep Green Sea” mas aqueceu bestialmente na passagem de “Charlotte Sometimes”, na apoteótica “Shake Dog Shake”e em “Endsong”, com um impressionante solo de Reeves Gabrels . Nem hora e meia tinha passado e estava terminado o concerto, faltando o encore. Mas os The Cure nunca foram ‘mainstream’ e, na verdade, nem o concerto terminou ali, nem houve realmente encores. O que aconteceu é que dividiram a performance em três partes, pois ninguém chama “encore” a uma sucessão de oito canções…

Eis que começou, então, a segunda parte com a melancólica “I Can Never Say Goodbye”, uma homenagem de Robert Smith ao seu falecido irmão, prosseguindo com “Cold”, “Faith” emoldurada com decoração literalmente gótica por via das belas ruínas da Bolton Abbey, e o clássico “A Forest”, com o palco a ser dominado pela prestação do baixista, o incontornável Simon Gallup. Nova interrupção para ganhar balanço para a montanha-russa final com um alucinado desfilar dos grandes hits da banda: “Lullaby”, “The Walk”, “Friday I’m in Love”, “Doing the Unstuck”, “Close to Me”, “In Between Days”, “Just Like Heaven” e “Boys Don’t Cry”. Os rapazes não choram, mas não parecia, tal o delírio colectivo ali manifestado, celebrando as canções que fazem parte da banda sonora da vida da maior parte dos presentes.

Duas horas e meia depois, Robert Smith voltava a estar “alone” em palco, despedindo-se humildemente da multidão que o saudava. Estava terminada mais esta dose de vacina rock, duma terapia que já conta com mais de quatro décadas. Um bom concerto, sem falhas, pensado para agradar aos fãs de hoje, de ontem e de anteontem, com tudo a bater tão certinho que até se fica a pensar se não se terá saudades do tempo em havia mais escuridão, mais espontaneidade, mais genuinidade…

TEXTO: Pedro Brás Marques
FOTOS: Pedro Brás Marques

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