M.Ou.Co. tremeu com a energia electrizante dos THE LOUNGE SOCIETY

Um projecto muito promissor e é certo que os grandes palcos lhe estarão reservados.

O prelúdio para o serão melódico no M.Ou.Co. era desde logo auspicioso, uma vez que desfilaram em palco, durante uma boa meia hora, os lisboetas, agora residentes em Nova Iorque, Hause Plants. A banda portuguesa está nomeada para os Music Move Europe Awards, prémios que serão atribuídos pela Comissão Europeia em 2023. Com um EP editado em junho deste ano, Sleeping with Weird People, sucessor do precedente Film For Color Photos, lançado em 2021, os músicos deram boa conta de si numa prestação breve, mas firme e personalizada, com boa presença no estrado. Temas como “Small Talk” e “Fake Friends” caíram no goto da audiência e quiçá, espera-se, possam vir a ser contemplados no contexto acima relatado. Também na memória fica a incursão por um dos temas que se assemelha a um “Dancing in the Dark” de Bruce Springsteen, uma nota digna de registo e que só pode ser positiva. Como é hábito dizer-se: “Vamos ouvir falar [muito]deles!

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

E se isso se disse no final dos Hause Plants, mais se enfatizou sobre a prestação dos The Lounge Society. A banda oriunda do West Yorkshire, Inglaterra, pela qual a pequena miríade esperava com a costumeira ansiedade, levou muita gente a apostar que a breve trecho estarão por cá de novo em lides musicais, num NOS Primavera Sound ou num Vodafone Paredes de Coura. E pelo que se viu e ouviu, partilhamos essas opiniões.

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

A narrativa prossegue num tempo mais presente, para dar uma ideia do que se viveu no espaço da cave do M.Ou.Co Hotel. Batem as 21h57 quando, em toada grave, entram em palco os The Lounge Society. O frenesim combinado com a tomada de pose e um estilo muito próprio apoderam-se dos intérpretes. Fazem uma “Intro” e o registo é positivamente histriónico. Cameron Davey, o vocalista e multi-instrumentista, não tarda nada e vai revelar-se um animal de palco. Ele e os guitarristas (e baixistas) Herbie May e Hani Paskin-Hussain alternarão as cordas, com troca assumida dos instrumentos a cada final de música, o líder assume a espaços também os teclados. Archie Dewis, por seu turno, vai vender concentração nos pratos e na tarola a partir daqui. Em “Cain’s Heresy” (Silk for the Starving, EP) arriscam-se uns riffs e o ritmo corre em ascensão. A casa, que está bem composta, ainda que não lotada (domingo à noite explica a situação), está expectante e começam a balançar-se, de forma notória, as anatomias em sinal explícito de aprovação com o que se passa no palco.

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

People Are Scary” (Tired of Liberty) comunga da energia da precedente e começa a soar a algo entre a sonoridade dos Clash, com uma mistura uma fragrância eléctrica de uns Franz Ferdinand. O ritmo contagia os circunstantes, Cameron Davey, ainda que precoce, aparenta umas semelhanças físicas com o celebérrimo Alvin Lee dos não menos famosos Ten Years After. O vocalista tem uma peculiar expressão corporal que imita a rigidez inicialmente, para numa rápida metamorfose ensaiar movimentos e contorções dignas de um ginasta. Em “Blood Money” (Tired of Liberty), Archie entra em registo cavalar, tal é a batida sem tréguas na bateria, Hani e Herbie entregam-se com devoção a domar as guitarras. Toda gente é convocada à dança.

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

Remains” (Tired of Liberty) afina pelo mesmo diapasão. Cameron canta, mas parece que grita um qualquer manifesto por justiça, na verdade clama. E acaba a fazer “Top-in-Leça”, tirando as vestes, embora não na totalidade. O ambiente há muito está ao rubro. Quase não há espaço para respirar entre as canções. As vozes dos demais integrantes fazem-se ouvir em auxílio, ao jeito de um coro. “Last Breath” (Tired of Liberty) tem o suporte dos teclados, para além de um baixo insinuante, da guitarra e da bateria cadenciada. As vozes estão em consonância e espelham um diálogo com o discurso cantado do vocalista. As luzes oscilam num bailio de focos. “No Driver” (Tired of Liberty) faz jus à metáfora de um concerto que nos leva a qualquer lugar, sem que saibamos bem onde, mas onde nos sentimos bem enquanto excursionistas melómanos guiados por uma sempre crescente energia. “Upheaval”(Tired of Liberty) é, no ritmo, bastante contrastante com o restante reportório, uma espécie de pausa imperativa para prosseguir o caminho, que é como quem diz, o alinhamento.

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

A energia transbordante regressa à arena com “Beneath The Screen” (Tired of Liberty), tema cuja linha de baixo inicial é, desde logo, um sublinhado digno de registo. “Valley Bottom Fever” (Silk for the Starving, EP) é uma missão musical que acaba a partir o que ainda resta da louça! Exemplar do rock mais puro e agreste, daqueles que se ouvem ao longo da noite, uma combinação explosiva, a espaços a arriscar a dissonância, mas que a todos cativa. O ambiente está escaldante, mas ainda há “Burn the Heather” (Silk for the Starving, EP) em jeito bem corrido – uma música em que o vídeo nos conta a história do(s) caçador(es) que acaba(m) caçado(s)- e o epílogo com “Generation Game”.

(Foto de Juliano Mattos / M.Ou.Co.)

O público bem que pede mais, mas a oferenda musical finda com 12 temas tocados. Com o EP Silk for the Starving, editado em 2020 e o álbum seminal, acabado de lançar em 2022, intitulado Tired of Liberty, os The Lounge Society são um projecto muito promissor e é certo que os grandes palcos lhe estarão reservados para um período breve. A aposta dos promotores Os Suspeitos/Mr November pareceu uma vez mais justificada por um concerto que ficou tracejado na mente.

TEXTO: João Arezes

FOTOS: Juliano Mattos / M.Ou.Co.

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