PALMA’S GANG volta a escrever memórias perpétuas

O final da Antologia de Jorge Palma não podia ter pedido melhor cereja no topo do bolo. O Cineteatro Capitólio viveu momentos que irão perpetuar na memória dos músicos. Mas principalmente dos espectadores presentes.

Depois do pontapé-de-saída no Palácio Baldaya e de quatro noites históricas no Teatro Tivoli BBVA, o revisitar da discografia do músico septuagenário conheceu um terceiro e último palco, em pleno Parque Mayer. A companhia de Jorge Palma também mudou: Kalú na bateria, Alex Cortez no baixo, Flak e Zé Pedro (sim, o próprio) nas guitarras. A sua habitual banda, tal como outros nomes bem conhecidos da música portuguesa como Tiago Bettencourt ou Benjamim, estava no meio de um público heterogéneo. Boa parte dos presentes não era nascida aquando da materialização deste mítico conjunto através do disco “Palma’s Gang ao vivo no Johhny Guitar” (1993). Incluindo o autor desta reportagem.

Segundo e último dia de concerto no Capitólio. Palmas Gang, com Jorge Palma, Kalu, Flak e Alex.

Ainda o concerto não tinha começado e já era perceptível que estávamos perante uma banda que se tinha transformado em banda de culto durante a sua inactividade. ‘Portugal, Portugal’ colocou à prova a afinação dos presentes e ‘Eles Já Estão Fartos’ foi o tema que se seguiu, num alinhamento fiel ao presente no supra mencionado disco. Ao quinto tema, o primeiro e único percalço da noite. Jorge Palma partiu uma corda da sua guitarra eléctrica, com Kalú a abortar ‘O Velho no Jardim’ para Palma exclamar que “não partia uma corda há não sei quantos anos”. Não tardou a resposta de Kalú que afirmou que o amigo “tem que tocar no Palma’s Gang para partir uma corda”. ‘Eternamente Tu’ terminou a primeira parte do espectáculo com Palma a ficar sozinho em palco mas por pouco tempo. De surpresa, Kalú invadiu o palco para, com uma pandeireta, dar um ritmo invulgar a ‘Jeremias, o Fora da Lei’. “Ele não consegue estar parado”, desabafou Jorge Palma no final da canção.

A banda voltou a palco com ‘Lobo Malvado’, provando que consegue fazer funcionar lados B da carreira de Jorge Palma de uma maneira inexplicável. Lados B que já tinham estado em palco nesta Antologia. Mas não com esta preponderância e envolvência da plateia que se entregava devotamente, tema após tema, à batida freneticamente electrizante de um Kalú no topo de forma. ‘Deixa-me Rir’ e ‘Cara d’Anjo Mau’ colocaram, uma vez mais, as vozes dos presentes em uníssono. A noite parecia chegar ao fim. Os temas que faziam as delícias de quem frequentava o bar Johnny Guitar já estavam revisitados. Mas havia mais. Muito mais.

Segundo e último dia de concerto no Capitólio. Palmas Gang, com Jorge Palma, Kalu, Flak e Alex.

Entre a sua vertente mais solitária, a sua veia mais rock e o seu trabalho em teatro, Jorge Palma esteve 12 anos sem lançar nenhum disco de originais. Mais concretamente entre “Quarto Minguante” (1989) e “Jorge Palma” (2001). O regresso em 2001 fez-se, em parte, com o Palma’s Gang pois o conjunto gravou nesse disco duas faixas. Duas faixas que, por coincidência ou não, tornaram-se obrigatórias nos concertos de Jorge Palma. O primeiro encore da noite trouxe a palco esses mesmos temas, ‘Dormia Tão Sossegada’ e ‘Espécie de Vampiro’, para delícia dos fãs. Pouco depois a banda abandonou novamente o palco. Sentia-se que a noite estava a chegar ao fim. Mas faltava a mítica picada das abelhas.

Segundo e último dia de concerto no Capitólio. Palmas Gang, com Jorge Palma, Kalu, Flak e Alex.

Sentia-se, também, a presença de Zé Pedro. Não só porque foi ele a criar e a dar nome a este emblemático grupo que se juntava no seu bar. Mas também no material de um Flak que subiu a palco com amplificador e coluna pertencentes ao guitarrista e fundador dos Xutos & Pontapés. O que ainda não se sabia é que a noite iria culminar com a sua guitarra. Mas aconteceu mesmo, como se a noite não estivesse já repleta de emoção. Com a banda de novo em palco, Jorge Palma exclamou “nesta guitarra está o Zé Pedro, é mesmo o Zé Pedro”, embora não fosse necessário pois há riffs que se reconhecem ao primeiro acorde. Mas ali estava ele, presente através da sua guitarra captada nas noites ao vivo no Johnny Guitar, mesmo volvidos cinco anos de um desaparecimento que tarda e custa a aceitar. E foi com o gang completo que os presentes foram contemplados por uma picada de abelha muito saborosa numa noite que os livros de história da música portuguesa não farão esquecer.

Alinhamento:

  1. Portugal, Portugal
  2. Eles Já Estão Fartos
  3. Poema Flipão
  4. Outra Onda
  5. O Velho no Jardim
  6. Razão de Estado
  7. Eternamente Tu
  8. Obrigação
  9. Meu Amor (Agora Não Fiques Para Aí a Dormir)
  10. Jeremias, o Fora da Lei
  11. Lobo Malvado
  12. Deixa-me Rir
  13. Cara d’Anjo Mau
  14. Podem Falar
  15. O Homem Invisível
  16. Tempo dos Assassinos
  17. Dormia Tão Sossegada
  18. Minha Senhora da Solidão
  19. Espécie de Vampiro
  20. Eu Sei Lá
  21. Walk On The Wild Side
  22. Picado Pelas Abelhas

Segundo e último dia de concerto no Capitólio. Palmas Gang, com Jorge Palma, Kalu, Flak e Alex.

A Antologia de Jorge Palma ainda agora terminou e já deixa saudades. 95 canções foram tocadas ao longo de seis concertos. Esta viagem começou com Jorge Palma sozinho ao piano. Prosseguiu no Teatro Tivoli onde o músico continuou a fazer viajar com as suas mãos, brilhando depois numa noite de estrelas e noutra cheia de lume numa estadia que culminou sem páginas em branco. Por fim, o regresso do Palma’s Gang. A cereja no topo de um bolo de vários andares. Talvez a idade não permita tantas aventuras rockeiras quanto isso, mas oxalá o Palma’s Gang estivesse para ficar. Pelo menos enquanto houver estrada para andar.

Até lá, resta-nos agradecer a Jorge Palma por 50 anos de carreira celebrados a aceitar o desafio de colocar em palco um projecto ímpar a nível nacional. Muito obrigado!

(Diogo Santos escreve de acordo com a Antiga Grafia.)

TEXTO: Diogo Santos

FOTOS: TM

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