Concerto Suspeito de ZOLA BLOOD no M.Ou.Co.

Eletrónica atmosférica dançável e noturna, de apreensão intuitiva.

A promotora Os Suspeitos by Mr November está a modificar a oferta cultural portuense no espectro da música indie com o desafio #vouporqueseiqueébom e uma enxurrada de propostas refrescantes de diferentes géneros. Em novembro de 2022 apresentou a triologia L’Objectif, The Lounge Society e Zola Blood, que esgotou a sala M.Ou.Co. e deu a conhecer três projetos emergentes de grande valia.

A 24 de novembro de 2022 Portugal estreou os relvados do Qatar e o trio eletrónico londrino Zola Blood estreou os palcos portugueses com a digressão do recente segundo álbum, Black Blossom. Na sala do M.Ou.Co., Matt West na voz e guitarra, Paul Brown na guitarra e sintetizadores, Ed Smith nos sintetizadores e Sam Cunnington na bateria, camuflaram-se de escuridão e tranquilidade.

A voz de Matt oscila entre o tenor e o falseto sem sair das margens dos instrumentos, quase diluída neles. A bateria fornece o fio condutor, os sintetizadores divertem-se, e as guitarras dão ao som uma tridimensionalidade envolvente. Uma eletrónica atmosférica dançável e noturna, de apreensão intuitiva.

Indigo Skies (Black Blossom, 2022) abre quase a capella sobre um ritmo eletrónico, para ir ganhando corpo numa progressão segura. Serve de plataforma para um mergulho na imensidão de Infinite Games (Infinite Games, 2017), com saída para a planície sem linha do horizonte de Blood Tied (Black Blossom, 2022).

Thank you for coming out tonight with the football” antecede a suavidade de Good Love (Infinite Games, 2017). The Only Thing (Infinite Games, 2017) acelera sobre um loop e uma bateria constantes e It Never Goes (Black Blossom, 2022) espalha uma fragância de ondulação pela assistência. Get Free (Black Blossom, 2022) incorpora-a e acrescenta-lhe um beat sincopado para dançar que conquista a plateia. For The Birds (Black Blossom, 2022) é recebido com palmas e cria uma atmosfera de hipnose em torno do mantra “You know I’d change it if I could / But I’m only flesh and blood”, Os teclados de Only You (Two Hearts, 2020) desenvolvem-se numa espiral contida.

This whole iniciative is great, it’s wonderful to be here, thank you for having us.”. The Way It’s Gonne (Black Blossom, 2022) e Miles and Miles (Infinite Games, 2017) investem numa claustrofobia underground acolhedora. Nothing (Infinite Games, 2017) termina num remate de boa disposição contagiante, inspirada pela cumplicidade de Paul e Ed a manipularem os sintetizadores.

O quarteto despede-se e regressa para o encore com Two Hearts (Two Hearts, 2020) e Play Out (Infinite Games, 2017) que desencadeiam um frenesim de movimento.

Os Zola Blood não são mais um dos solilóquios do momento à deriva na eletrónica: são um projecto que encontrou a sua identidade e a exprime com requinte e elegância, tão bom de ouvir como de sentir. Estudaram os mestres e aprenderam a descolar-se deles com desassombro e testando os limites sensoriais. Do Porto rumam a Lisboa, onde integram o cartaz do Super Bock Em Stock 2022.

Texto: Ana Cristina Carqueja

Fotos: Pedro Brás Marques

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