SUPER BOCK EM STOCK 2022 – primeiro dia

A pop fofinha teve de render-se à excentricidade musical de Ana Moura
SUPER BOCK EM STOCK 2022 – primeiro dia

O primeiro dia de Super Bock em Stock foi coeso, sem ser demasiado espetacular. Foram os portugueses David Bruno e Ana Moura quem mais abrilhantou a noite.

Festivais de música e tempo frio por norma não fazem o match perfeito, mas isso tem sido a oportunidade bem aproveitada do Super Bock em Stock ao longo dos anos. Em 2022 o frio chega à cidade de Lisboa mas a boa música pelas diversas ruas e salas de espetáculo em volta da Avenida da Liberdade mantém-nos vivos na capital.

Sobre os concertos, a verdade é que a escolha deste dia recaiu mais para os concertos no Coliseu dos Recreios, com passagens breves na Casa Alentejo e por fim no Capitólio, para ver Ana Moura e o seu álbum muito badalado “Casa Guilhermina”.

Começamos então com os TV Girl, uma banda californiana que tinha a missão de abrir a maior sala deste festival. Claro que às 20h (a uma sexta-feira), a plateia estava curta mas até se foi convertendo à musicalidade mais melancólica (e sarcástica) dos TV Girl. A banda formada por Brad Petering, Jason Wyman e Wyatt Harmon cumpriu o necessário, mas havia mais concertos para ver por aí.

Galeria completa no

A seguir, e no mesmo palco, aparecia o novato mas já carismático para o público mais adolescente, Alfie Templeman, acompanhado pelo baterista e o baixista. Esta é um tipo de musicalidade mais virada para a pop fofinha. As primeiras filas, provavelmente fãs reais da banda, vibravam a cada acorde de Alfie. Mais atrás, os menos atentos e desconhecedores da sua música avaliavam aquele estilo de uma forma menos calorosa. A verdade é que Alfie até pode ter o talento mas só com o crescimento musical e de artista chegará a algo mais contagioso e que fique no ouvido.

Alfie Templeman | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

Galeria completa no

Dali passamos então 50 metros ao lado para entrar na lindíssima Casa do Alentejo. Primeiramente para ver no Pátio, Rita Dias. A artista emergente de roupas coloridas fez pendent com toda a esfera que estava criado naquele local – várias luzes de Natal contemplando a artista e os seus três músicos: André Santos, André Rosinha e Ricardo Toscano. Curiosamente foi ao lado do one man show Noiserv que começou o seu espetáculo. Dona de uma voz angelical, Rita conseguiu guiar o público para a sua sensibilidade – onde os instrumentos foram também importantes para criar este ambiente mais intimista.

No piso de cima estava, minutos depois, um dos concertos mais aguardados do dia. Isla de Caras são um trio argentino com uma música também virada para uma pop-indie com alguma noções de tango e outros ritmos do país de origem. Comparando, por exemplo, com Alfie Templeman, os Isla parecem já estar mais maduros e com sonoridades menos básicas, mais fáceis de conquistar. Um concerto com uma sala bem mais pequena do que o Coliseu dos Recreios também ajuda.

Problemas desses não teve David Bruno na boa meia hora que assistimos de concerto (para não perder pitada do concerto de Ana Moura). Sempre bem acompanhado pelo guitarrista Marquito e o entertainer António Bandeiras, o artista de Gaia chamou sempre a atenção, fosse nos temas mais mainstream Bebe e Dorme” ou “Inatel” e “Interveniente Acidental” que cantou junto ao seu colega Mike El Nite, como nas músicas mais recentes do álbum “Sangue e Mármore”, uma áudio-novela criada pelo próprio. Nos concertos de David Bruno, seja a norte ou a sul do país, sente-se sempre um carinho impensável do público e uma sensação de jogar sempre em casa. Como o próprio costuma dizer um concerto “extremamente gentil”.

David Bruno | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

Galeria completa no

Correrias na Avenida da Liberdade, do Coliseu ao Capitólio para ver o concerto da artista mais diferenciada de 2022. Ana Moura era um marco no fado, agora é facilmente uma reinventora de vários estilos colados e que se interligam na perfeição com o fado – até porque a música é também ela evolução.

A voz continua a mesma, o look mais irreverente e brilhante. Só que agora há novas músicas e estilos para explorar, num concerto em que já não está no estado de “Desfado” mas sim numa estrutura vibrante de temas que são de Lisboa, do país e das descendências de muitos de nós. O novo álbum “Casa Guilherme” além de uma musicalidade nunca antes ouvida, tem também versos marcantes e que nos ficam na cabeça mesmo após o concerto. Se “Andorinhas”, o primeiro single desvendado desta nova persona de Ana Moura ecoou, os outros não ficaram muitos decibéis abaixo. “Jaracandá”, “Mázia”, “Arraial Triste” ou até “Agarra em Mim”, música que canta com o seu namorado Pedro Mafama, que estava presente na plateia mas não participou neste concerto, dando 100% de notoriedade a quem a merecia neste momento de apresentação de novo trabalho.

Ana Moura | Foto © Teresa Mesquita (Imagem do Som)

Galeria completa no

Este “Casa Guilhermina” vai envelhecer muito bem e espero que este concerto e versos se mantenham muito tempo connosco. Sinal que estamos a ir pelo caminho certo!

Texto: Rui de Sousa
Fotos: Teresa Mesquita

Menu

Bem-Vindo(a)!