VILAR DE MOUROS : O FESTIVAL QUE INSPIRA ROCK E EXPIRA ROLL

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São duas da tarde. O sol bate nas arvores e deixa-se reflectir no rio, que serve de refresco aos festivaleiros que vão chegando à pacata aldeia de Vilar de Mouros. Falta um dia para que o sossego se acabe. Montam-se as tendas e instalam-se os inquilinos de sempre.

O Festival Vilar de Mouros tem o publico mais fiel dos últimos 40 anos. Não é raro ouvir-se por aí frases como : “Não preciso de saber o cartaz, sei que é bom. Nunca saí daqui desiludido”, “Venho a Vilar de Mouros desde 82 e no que depender de mim, não faltarei a nenhuma edição”. Se por um lado o público mantém a sua lealdade, a organização retribui com um dos melhores cartazes, senão o melhor, de todos os festivais em 2019 : Offspring, The Cult, Sisters of Mercy, Skunk Anansie, Gogol Bordello, Prophets of Rage e Manic Street Preachers são alguns dos nomes que encheram as medidas de todos nós. Mas já lá vamos, porque a música não existe só dentro do recinto. Esta aldeia inspira rock e expira roll.

Numa era em que os festivais se assemelham cada vez mais a parques de diversões, repletos de estruturas e cenários idílicos utilizados como ferramenta para a prática publicitária, não corremos risco nenhum em dizer que Vilar de Mouros é o “last man standing” da velha guarda. Só nos interessa a música.

A noite vai-se instalando, mas o sono nem por isso. Ligam-se as colunas portáteis, as cervejas frescas são postas em cima da mesa e ninguém pára de cantar e dançar noite dentro. “Quem quer dormir fica em casa, eu venho aqui para curtir”, diz um dos vizinhos com quem passei a noite. Mais tarde ou mais cedo, vamos todos adormecendo. Avizinham-se 3 dias duros de festa

DIA 1

O cansaço pode ter ganho a batalha, mas não ganhou a guerra. Mergulha-se no rio para revigorar o espírito e nada como  Anna Calvi e as suas guitarradas graves e sincopadas para despertar o mais sonolento dos festivaleiros. 45 mins de rock corpulento e riffs pesados que faziam estremecer o mais viril dos metaleiros. Se em albúm Anna Calvi parece dócil, ao vivo é um monstro.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

 Já de noite, os norte irlandeses Therapy? fizeram questão de rebentar com os décibeis do palco Meo. Apesar de não serem conhecidos do público, rapidamente os conquistaram com o seu metal poderoso e enérgico. “FUCK TRUMP”, “FUCK BREXIT” dizia o vocalista levando o público á loucura.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Por sua vez, os galeses Manic Street Preachers que celebram os 20 anos de “This Is My Truth, Tell me Yours” e não pisavam solo nacional desde 2007, serviram para repor energias, não por falta de vivacidade no seu espectaculo, mas sim pela tonalidade mais pop e melódica que deu azo á primeira enchente do dia. “Motorcycle Emptiness” a abrir e “If You Tolerate This Then Your Children Will Be Next” a fechar. Não faltou nada, nem uma belíssima cover de “Sweet Child O Mine”.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Faltam agora os The Cult, também eles em celebração dos 30 anos do album Sonic Temple. Se a voz do vocalista Ian Astbury já não é a mesma de há 30 anos, a sua postura e carisma mantiveram-se inalterados. Um alinhamento composto maioritariamente por cançoes do album Sonic Temple mas sem nunca esquecer os clássicos como “Here Comes The Rain” e “She Sells Sanctuary” que fechou o concerto. Se o hard rock gótico, por si só, já tinha conquistado os aficionados, mais em delírio ficou o público quando o vocalista desejou sorte aos adeptos do FCP, em jeito de antevisão do clássico de sábado. O primeiro dia está assim encerrado. É tempo de tentar descansar.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

DIA 2

18 500 pessoas. Dia absolutamente esgotado. A maior enchente desde o retorno do festival em 2014. E não terá sido por menos.

O palco principal arrancou com os Nitzer Ebb. Banda poderosíssima com batidas pesadas sobrepostas á voz ecoante do vocalista Douglas Mcarthy, um dos ícones da Electronic Body Music. Atitude punk, indumentária gótica e a sonoridade techno foram os elementos necessários para energizar uma plateia que iria explodir horas mais tarde.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Pouco tempo depois, no palco secundário actuaram os Sisters of Mercy. Absolutamente envoltos numa névoa e escuridão, jogando com luzes frias, a banda deu aquele que foi o concerto mais amorfo do festival. Apesar de terem uma legião de fãs considerável ansiosos por os ouvir, os Sisters of Mercy nunca conseguiram transpor o power das suas músicas para o público.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Tocavam as 12 badaladas e os Skunk Anansie subiam ao palco principal, fazendo esquecer qualquer desilusão do concerto anterior. Não se pode dizer que foi um concerto que surpreendeu a partir do momento em que todas as performances da banda em Portugal são irrepreensíveis. A vocalista Skin protagonizou um dos momentos do festival quando se insurgiu contra o fascismo e o racismo antes de cantar o famoso hit “Hedonism” com o público a servir de coro. Memorável.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Levanta-se o pó e põem-se T-shirts e lenços á volta da boca e do nariz. Chegou a hora dos veteranos Offspring : Reis e Senhores do segundo dia de festival. Torna-se dificil descrever este concerto quando a névoa que se levantou sob Vilar de Mouros quase que ofuscava a própria banda. “I see a million moshpits out there”, disse Noodles o guitarrista. Muitos duvidavam da capacidade dos Offspring fazerem a festa como antigamente. É caso para dizer que no caso deles, a idade perdoa. Um grande concerto repleto de energia, boa disposição e muito muito power.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

DIA 3

Ninguém quer que chegue ao fim, mas hoje é o ultimo dia. O recinto encheu consideravelmente mais tarde devido ao clássico Benfica-Porto, o que era visivel na escassez de público no concerto de Gang of Four e Linda Martini. A bola move mundos, mas também os moveram os Prophets of Rage, banda formada das cinzas de Rage Against The Machine, Cypress Hill e Public Enemy, que deram aquele que foi o melhor concerto do festival. O alinhamento foi composto maioritariamente por musicas de RATM e um medley de Cypress Hill e Public Enemy. Sempre reaccionarios e interventivos contra as injustiças e maldições a que o nosso mundo está sujeito, a banda projectou no palco a mensagem “FAÇAM PORTUGAL ENRAIVECER NOVAMENTE”, atiçando o público que batalhava nos moshpits.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

  O guitarrista Tom Morello agradeceu, dizendo que o nosso país sempre os recebeu ao longo dos anos que nos visitaram com as suas antigas bandas, de forma carinhosa e efusiva. Esperava-se que o concerto acabasse com a destruidora “Killing in The Name Of”, mas ainda houve tempo para um encore que entoou “Bombtrack”.

 Banhados em álcool e vestidos a preceito, arrojados e espampanantes como sempre, a comitiva Gogol Bordello fechou o festival com o seu contagiante Gypsy Punk. Impossível não dançar ao som desta banda que já tantos bons momentos deu a este país.

Retirada do Instagram Oficial do Festival Vilar de Mouros

Acabou assim um festival que se mantém (felizmente) igual a si mesmo. Para além do pó, que o Rock N Roll continue a ser a única imagem de marca do festival, porque como Vilar de Mouros não haverá igual.

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