Carincur: SORRY IF I MAKE LOVE WITH SOUND

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Sorry If Make Love With Sound” (ZABRA006), disco de estreia de Carincur e segundo longa duração da ZABRA Records, atravessa um espaço intermédio, um espaço entre a luz e a sombra, qualquer coisa a que podemos chamar uma atmosfera. Tudo está impregnado de espectros, ruínas, fantasias, delírios e ideias por resolver. Uma narrativa muito frágil vai-se afirmando aqui e ali, ora pela voz própria, ora pelas colagens de material alheio, dando-nos as pistas mínimas para aceder à intimidade da intérprete. Algo se está a passar sobre corpos reificados, mentes dopadas, identidades alienadas e a própria possibilidade do humano. São, assim, temas apocalípticos, mas de quem não teme a inquietação sem a qual não é possível uma última tentativa.

Algumas referências emergem como Grouper ou Inga Copeland e, se quisermos recuar, Laurie Anderson ou Delia Derbyshire. Mas o tecido da música de Carincur é maior do que aquilo que a ela podemos associar. Entra as atmosferas difusas, há algo de muito palpável, vivo e com um horizonte que se renova a cada audição. É também assim um disco sobre a possibilidade de nos interstícios se encontrarem novos motivos e, enfim, à margem das categorias cristalizadas, recomeçar.