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Clementine, o português, e as juras de saudade

Clementine, o português, e as juras de saudade

Hélio Carvalho
Hélio Carvalho
Nascido a 30/06/1995. Licenciado em Ciências da Comunicação na UMinho e a frequentar o mestrado no mesmo curso e mesma universidade. Um homem do Minho, bem influenciado pelo rock que se anda a mexer por cá. Os pais queriam que seguisse a música clássica, mas achou que também vale a pena escrever e fotografar sobre moshes. No fim de contas, Beethoven e SHAME são igualmente bonitos.
O músico acabou a sua tour de sete concertos em solo nacional no Porto, despedindo-se em grande de um país que é cada vez mais seu.

A cada concerto dado, Portugal é cada vez mais a casa de Benjamin Clementine. A estima do britânico pelo nosso país, cantada por sete concertos durante o início de junho, culminou na passada segunda-feira com uma casa cheia no Coliseu do Porto. Clementine cantou em inglês, falou em português (arranhado), e fechou a tour com a palavra mais portuguesa que pode existir: saudade.

Depois de anos a fio a passar pelos festivais e salas portugueses – sempre com banda – Benjamin Clementine regressou a Portugal com o seu quinteto de cordas parisiense. Um estilo diferente, mais recatado e intimista, feito para realçar a atitude pacifista e globalista do músico.

Antes de se sentar no piano, sentou-se antes dele o texano Beaven Waller. O músico pediu desculpas por ser do Texas, uma crítica quebra-gelo face à realidade vivida nesse estado dos EUA. Waller abriu a noite com uma série de baladas carregadas de experiência pessoal, uma história humorosa e um tributo a David Bowie.

© Hélio Carvalho

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Depois da hora marcada, veio Benjamin Clementine, a acenar. Abriu o concerto com “Winston Churchill’s Boy”, a música que abre o seu grande álbum, “At Least For Now”. Vagueia pelo palco antes de sentar altivamente no piano, deixando o quinteto fazer a sua música por si.

Antes de partir para a próxima música, arrisca pela primeira vez o português que tem aprendido. “Hoje esteve um dia muito bonito”, diz tímido, como é seu hábito e imagem de marca. Canta “God Save The Jungle”, do álbum “I Tell A Fly”, um álbum cheio de conotações e mensagens humanistas, desde a crise dos refugiados ao aquecimento global.

“Condolence” é a música que mais ânimo arrecada do público. Mas quem já viu concertos de Benjamin Clementine, já sabe o que a casa gasta e alinha sempre no coro que o maestro Benjamin orienta. Virado para a público, abanando os longos braços, dirige a multidão a tentar afastar as trevas. “I’m sending my condolence to fear. I’m sending my condolence to insecurity”, proclama o coro do Coliseu. Clementine responde, em português arranhado: “por favor, cantem comigo”.

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Vamos a meio do concerto e já há ovações, longas ovações, em pé. Ninguém parece querer prosseguir o concerto depois de “Condolence”. É de notar o carisma e a atitude em palco do britânico, ao tornar uma parte do espetáculo já tão badalada em algo persiste em ser feito com alvor e brilho nos olhos.

Quando todos finalmente se voltam a sentar, Clementine e o quinteto continuam com músicas do álbum de 2014, desta vez “London”, uma das músicas mais conhecidas. A música é quase uma variante de rock, mas com o quinteto de cordas ganha uma nova solenidade e atitude. Se nalgumas músicas, a sonoridade das cordas fez a música perder intensidade, nesta acrescentou uma nova aura.

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O mesmo se passa com “Cornerstone”. Se antes a música era uma balada forte e pujante, as cordas e as ténues luzes atrás do quinteto dão uma base mais dramática e sombria à mensagem pessoal e afetuosa de Clementine.

Já no encore, e depois de dar um passeio desde o palco até à entrada do Coliseu – para gáudio de quem teve a perspicácia de escolher os lugares mais centrais da casa -, Clementine e companhia tocam “Paris Cor Blimey”, uma música sobre a crise migratória. “Kick them away”, diz o britânico, ironizando as atitudes extremistas anti-refugiados e floreando no teclado a correria daqueles que procuram um destino.

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Quase a acabar o concerto, Clementine pergunta ao público se acredita no aquecimento global (outro tema que é tocado em “I Tell A Fly”). O público diz que sim e o britânico brinca: “isso é sábio”. Goza carinhosamente também com um espetador que se levanta mais cedo para ir embora e, finalmente, num português muito arranhado, diz as palavras mais bonitas da noite. “I’m gonna… como se diz… vou ter saudades”.

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O público, audivelmente enternecido, espera pelo final de “Farewell Sonata” para aplaudir em pé o britânico e o seu quarteto. É o final da viagem de Benjamin Clementine em 2019, que o levou inclusive aos Açores. Em Portugal, espera-se pelo regresso; a Clementine basta aparecer, que o país o receberá.

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Hélio Carvalho
Hélio Carvalho
Nascido a 30/06/1995. Licenciado em Ciências da Comunicação na UMinho e a frequentar o mestrado no mesmo curso e mesma universidade. Um homem do Minho, bem influenciado pelo rock que se anda a mexer por cá. Os pais queriam que seguisse a música clássica, mas achou que também vale a pena escrever e fotografar sobre moshes. No fim de contas, Beethoven e SHAME são igualmente bonitos.