Despido de rock, Kevin Morby está mais vivo que nunca

Depois de ter passado por Paredes de Coura em 2019, o músico americano voltou a um país que acarinha tanto para apresentar a sua versão mais acústica e intimista.
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FOTOS: Hugo Sousa | gnration

A chuva ameaçou e obrigou a uma mudança de local, mas a intimidade de um concerto acústico num jardim esteve lá na mesma. Kevin Morby passou esta segunda-feira por Braga, trazendo consigo a sua versão mais acústica e despida de rock, mas mais límpida e transparente que nunca.

Foto: Hugo Sousa | gnration

Fato branco, botas brancas, “Oh My God” escrito a dourado nas costas, Kevin Morby entrou em palco como um pastor texano. Começou por sentar-se no teclado em vez de pegar na sua guitarra e, sem grande delicadeza, deu os primeiros acordes de “Oh My God”, do seu álbum homónimo, lançado em abril deste ano. Acompanhado em grande parte do espetáculo por Hermon Mehari, Morby foi cantando num ambiente que mais parecia de um estúdio: ninguém falava, havia receio em tossir sequer.

O tom foi sempre o mesmo. Foi um concerto repleto de histórias de viagem, histórias de amor, lições de vida aprendidas no Texas, de onde vem. Podia ser mais um concerto de folk, mas a voz ligeiramente desafinada de Morby, conjugada muitas vezes pela voz forte e clara do trompete, dão um novo vigor à sua música.

Foto: Hugo Sousa | gnration

O próprio cantor admitiu mais tarde no espetáculo que esta nova forma de apresentar as suas músicas, “despida” do rock que o tem caracterizado, pode não ser a preferida de muitos. “Se não gostam… são opiniões”, brincou. “Escrevi estas músicas com a guitarra e provavelmente a ser preguiçoso”, confessa.

Com preguiça ou não, o conceito trouxe bons resultados. Isto apesar do concerto ter sido não nos jardins do Museu D.Diogo de Sousa, como era previsto, mas sim no Auditório Vita. Até isso levou com o bom humor de Morby. “Parece que estou a dar uma aula. A Universidade da Kevin Morby Experience. Isto é a minha TEDtalk. O que é na verdade uma TEDtalk?”

Foto: Hugo Sousa | gnration

Apesar de algumas músicas serem familiares ao público, como “City Music” ou “Crybaby”, durante a maior parte do concerto, o americano cantou sozinho na guitarra a apresentar músicas do novo álbum, como “No Halo” e “Savannah”.

A grande “surpresa” da noite surgiu quando Kevin Morby convidou a palco a sua “cara-metade”, Katie Crutchfield, que o tem acompanhado na digressão.

À primeira vista, de vestido preto e sabrinas, talvez se esperasse uma Katie acrescentasse um toque mais doce e suave à sonoridade de Morby. Mas quem a conhece como Waxahatchee, o seu projecto a solo de folk rock, sabe que a voz de Katie não é propriamente de um quente e sossegado timbre.

Foto: Hugo Sousa | gnration

Pelo contrário, a sua voz é praticamente igual à de Morby, apenas mais aguda. Forte, com um carregado enrolar americano, encostou-se a Kevin para ambos cantarem ao mesmo microfone. Juntos, tocaram “The Dark Don’t Hide It”, uma cover de Magnolia Electric Co., e “Beautiful Strangers”, uma das músicas mais conhecidas de Morby e que decidiu dedicar ao público português.

Antes do encore – que também é motivo de jacota num intervalo entre músicas – Kevin Morby explicou o seu carinho que se revelou surpreendente e enorme por Portugal. Falou sobre as recomendações dos amigos do Porto – “é como a California, mas melhor” -, sobre o seu primeiro concerto em Portugal, em Aveiro. E diz que agora já conhece a autoestrada entre Lisboa e Porto de cor.

Foto: Hugo Sousa | gnration

O ano passado, Kevin Morby veio tocar ao Vodafone Paredes de Coura e confessa que aproveitou para tirar duas semanas de férias na Invicta, simplesmente para aproveitar o país.

A sua história de viajante mais portuguesa só poderia culminar com uma música tão cheia de saudade, “Dorothy”, que escreveu em 2014 sobre a sua antiga guitarra.

Já perto do final, Morby voltou a agradecer ao público de Braga e deixou a promessa no ar. “Eu estou de volta para o ano”. Com a despedida feita, tocou as suas duas grandes músicas, “Parede” e “Harlem River”, e o uivar da sua voz carregou consigo os maiores momentos de participação do público, que foram cantando e acrescentando faixas de som às longas músicas.

Terminado o concerto, o cantautor americano ainda aproveitou para atirar flores que estava presas aos tripés dos microfones. O público, esse, ficou de pé até não restar dúvida que já se tinha ido embora mas a contar os dias até 2020 para o prometido concerto.

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