Festival Para Gente Sentada: o som é fraTerno, a reciprocidade também

O festival que decorreu em Braga deu a conhecer artistas emergentes da cena lusófona e a idolatrar a vibe dos cabeças-de-cartaz.
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O Festival Para Gente Sentada é daqueles que não enganam: as pessoas sentam-se nos seus lugares e usufruem da qualidade musical dos artistas convidados. A edição de 2019 manteve-se fiel a essa filosofia e trouxe grandes nomes, de sonoridades bem diferentes do habitual: desde o rock progressivo dos Terno ao eletronic-jazz dos Kamaal Williams ou ao piano de John Grant. Mas vamos por partes.

Primeira Noite:

A primeira noite tinha um alinhamento mais curto e fácil de decorar. Os portugueses Sensible Soccers a iniciar e Kamaal Williams a fechar os concertos no Theatro Circo, em Braga.

Os Sensible Soccers são uma das bandas que mais se destacou em 2019, muito devido a “Aurora”, álbum que editaram ainda no presente ano, e que foi muito bem recebido, tanto pelos fãs como pela crítica especializada. Produzido por B Fachada, este terceiro disco foi tocado ao vivo por uma hora. Uma musicalidade um pouco desviada dos restantes dois álbuns, já que os sintetizadores vieram dar-lhe uma força mais eletrónica.

© Hélio Carvalho

A banda formada por Hugo Gomes, Manuel Justo e André Simão consegue sempre surpreender. Onde sons diversos se formam, uns com os outros, há sempre espaço para acrescentar mais alguma coisa, sejam marimbas ou flautas. Ou melhor, um violino. Uma surpresa que o convidado e violinista Zé fez ao público, ao tocar um excerto de uma música num dos balcões laterais do teatro. O jogo de luzes que incidia sobre o fundo escuro do palco, contrastava com a iluminada parte cimeira do Theatro. Bonito.

Seguiu-se Kamaal Williams, o cabeça-de-cartaz da noite. O britânico foi a escolha da organização depois da desistência de Jonathan Wilson por motivos de saúde. Isso não foi um problema na forma como Henry Wu, teclista, abordou este concerto. Acompanhado pelo seu baterista (Joshua McKenzie), baixista (Pete Martin) e saxofonista (Mansur Brown), Kamaal Williams ofereceu boas sonoridades que se passeiam entre o jazz e a eletrónica.

© Hélio Carvalho

Envolvente, tentou sempre apelar ao feedback do público, que não é por estar sentado que não pode soltar o seu lado mais festeiro. Notou-se uma boa vibe entre os quatro, naquele típico cliché de que além de companheiros também pareciam bons amigos. Num estilo mais moderno de jazz, os Kamaal Williams sabem como pôr uma plateia a mexer, mesmo que esteja obrigada a manter-se sentada. Uma primeira noite de mestria sonora.

Segunda noite:

O Festival Para Gente Sentada começou mais cedo, com a programação no Gnration, espaço artístico da cidade com excelentes condições para a divulgação de música e concertos. Homem em Catarse, Bia Maria, Little Friend e Bia Ferreira compunham o certame. À exceção de Little Friend, todos os outros artistas tiveram direito a uma plateia em pé, decidindo não ter obrigação de levar o festival à letra.

A tarde iniciou-se com Homem em Catarse, o projeto pessoal do nortenho Afonso Dorido, na sala Blackbox. Homem Catarse é, na sua base, um one man show – um artista que aproveita os sons das sua guitarra eletrónica e os seus próprios sons humanos, como os aplausos, para criar uma música. Canta sobre o que o atormenta, sobre o que sonha, sobre os lugares que descobre, sobre as suas raízes. Uma hora bem passada com um artista talentoso e que, provavelmente virá a ser reincidente em festivais do género.

© Hélio Carvalho

Descidas as escadas para o pátio interior do Gnration, disfrutava-se da ternurenta voz de Bia Maria. Como a própria assume, a sua música entra numa modalidade diferente: fado-tradicional-pop. Os temas, esses são encantadores, e apesar de pré-adultos transportam-nos por caminhos mais maduros. Há muito amor no seu mais recente EP, “José”. Bia Maria cativou a centena que a assistia e cativou, muito provavelmente, novos seguidores do seu trabalho.

© Hélio Carvalho

Por fim, outra Bia – esta mais irreverente e revolucionária. Há artistas que nos querem dar música (no bom sentido da palavra); outros, como Bia Ferreira, preferem usar a música como manifesto do seu estado perante a vida e sobre como os órgãos políticos podem moldar o sistema. Novamente na Blackbox, ouvimos uma música interventiva que nos faz pensar no futuro da humanidade, na progressão dos movimentos feministas, anti-racistas e pró-LGBT. Bia Ferreira é a “girl power”, que não cala nenhuma controvérsia, está pronta a mudar mentalidades e destila mensagens sociais diretas para os Bolsonaros desta vida, não fosse ela brasileira. Difícil de domar.

© Hélio Carvalho

À noite, o sábado gelado e chuvoso em Braga contrastava com a envolvência quentinha da arquitetura do Theatro Circo. O Terno e John Grant eram os dois artistas que mais público chamaram ao festival e isso notou-se num recinto muito composto.

O Terno é o projeto de soft-rock de Tim Bernardes, Gabriel Basile e Guilherme D’Almeida. Já são consideradas uma das bandas mais influentes do Brasil, tendo sido aclamados os novos “Los Hermanos”. Alguns temas e musicalidades têm exatamente as mesmas referências mas a grande diferença está naquilo que O Terno quer transmitir com a sua música: uma lufada de ar fresco na música lusófona. Os três artistas vieram no seu uniforme branco habitual, que contrastava na perfeição com o fundo do palco escuro, e as luzes, ora coloridas ora neutras, em função da música que estavam a cantar.

© Hélio Carvalho

A maioria dos temas proveio do novo trabalho “< atrás/além >”, sem esquecer canções bem conhecidas, como “Culpa”. A boa disposição dos elementos da banda de São Paulo foi notória a cada rasgo de tímidos e sentidos agradecimentos. Houve (des)amor no romantismo que transpareceu para a plateia! Apesar de curto, o concerto do O Terno foi um dos mais bonitos e subtis deste festival. Depois da passagem no NOS Primavera Sound deste ano, e de uma data no Capitólio, espera-se nova chegada dos brasileiros em 2020.

Por fim, John Grant encheu o palco. Com cerca de hora e meia de concerto, o barbudo Grant teve tempo de dar a sua versão de jazz com um piano que não parou de dar boas notas aos ouvidos do público.

© Hélio Carvalho

Bem disposto, e com algumas piadas curtas e de bom gosto, começou com um portuguesado “boa noite”. A generosidade do norte-americano é percetível à distância, e acaba por ser uma surpresa perante a grandiosidade da música que nos entrega.

O artista começou por promover algumas músicas do seu novo álbum “Love is Magic”, de entre as quais “Global Warming” foi a melhor acolhida, com uma estrondosa sala de palmas. Grant é feliz neste registo ao piano, e esse bem estar sente-se. E, quando assim não é, como no hit final “This is Christmas Mother Fucker”, a voz faz questão de elevar-se a qualquer instrumento que o tente acompanhar. Aos 52 anos, o músico está no seu ponto alto. Foi uma excelente escolha para terminar a edição de 2019 do Festival Para Gente Sentada.

Para o ano há mais música para envolver(-se)!

Festival Para Gente Sentada Galeria Completa

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