NOS Alive 2019 | 11.07.2019 | 1º dia

O pôr do sol em que “ouvi dizer que o mundo acaba amanhã, e eu tinha tantos planos p’ra depois.”
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De 8 a 10 de junho de 2007 o NOS Alive espraiou-se, pela primeira vez, ao longo do Passeio Marítimo de Algés. A partir do ano seguinte avançou um mês no calendário e foi-se consolidando como referência no mapa dos festivais de verão. Em 2012, o NOS Primavera Sound criou uma alternativa mais distante do mainstream, e cada um destes dois bons exemplos de promoção nacional foi ampliando o seu espaço, ocasionalmente disputando artistas e adeptos.

Em 2016, o Mad Cool Festival ofereceu ao país vizinho uma opção séria ao Primavera Sound Barcelona. Nos dois anos seguintes, o NOS Alive foi afinando o cartaz pelo parceiro madrileno e redefiniu a sua identidade, afastando-se do conceito originário e aproximando-se do NOS Primavera Sound. Atualmente, a península ibérica acolhe duas linhagens de sucesso: em junho o Primavera Sound e o NOS Primavera Sound, e em julho o Mad Cool e o NOS Alive. Saem vencedores a qualidade, a música e a audiência.

No primeiro dia do NOS Alive’19 imperou um calor capaz de derreter códigos de barras e evaporar o Tejo. Na abertura de portas, as estruturas pareciam fundir-se com o asfalto e a temperatura ameaçava as espécies mais resistentes. A a disponibilização gratuita de água deveria constituir um imperativo categórico num recinto despido de sombras e onde o bem estar de cada um interfere com o estar bem de todos.

A inauguração ficou a cargo do palco Sagres, com o projeto vencedor do primeiro lugar no concurso EDP Live Bands Portugal, e merecedor de uma menção honrosa nos Prémios Fnac Novos Talentos 2019. Y.Azz X B-Mywingz é uma carruagem de consoantes impronunciável, e o alter ego da associação entre Mariana Prista e Margarida Adão. As duas portuguesas conheceram-se em Londres, e movem-se num universo índie, algures entre a melancolia e o groove, com um tempero de eletrónica. A Mariana tem uma voz segura, e está bem apoiada pelas cordas, bateria, teclados e computação. O seu sorriso num vestido branco auspicioso, encarregou-se das boas vindas à 13ª edição do NOS Alive.

Pelas 18:00 horas os Linda Martini estreiam o palco principal. André, Cláudia, Hélio e Pedro são reincidentes, mas nos que decorreram desde a última visita editaram 2 álbuns: “Sirumba” em 2016 e “Linda Martini” em 2018. São uma das bandas mais sólidas do rock nacional, e têm feito um percurso tranquilamente ascendente, conquistando passo a passo uma reputação que lhes confere credibilidade para qualquer desafio. Alinhados sobre a vertigem do palco, desfiaram temas selecionados entre os trabalhos mais recentes. A sua grande mais valia é a ligação intrínseca entre eles, e que gera a sensação de que cada um antevê continuamente como o outro vai respirar. Abriram com Semi Tédio dos Prazeres, prosseguiram com Caretano, Boca de Sal, Panteão, Unicórnio de Santa Engrácia, Amor Combate, Putos Bons, Se Me Agiganto, Gravidde, 100 m de Sereia e encerraram com Quase se Faz uma Casa. Uma secção rítmica poderosíssima, guitarras a brilhar, mudanças de andamento muito bem conseguidas, e a voz inconfundível do Pedro, reforçada sempre que necessário pelas do André, Hélio e Claudia. Uma hora de profissionalismo de alto nível, com um toque pessoal enternecedor – “mãe, podes baixar os braços aí atrás, porque eu já vi o cartaz”.

 

© Teresa Mesquita

Linda Martini Galeria Completa

Às 18:50 o palco Sagres recebe a musa da folk alternativa, Sharon Van Etten. O álbum de 2019 “Remind Me of Tomorrow” está entre um dos melhores deste ano, e revela uma produção complexa com elementos de eletrónica ausentes dos trabalhos anteriores. A compositora e intérprete de New Jersey vem acompanhada por baterista, baixista, teclista e um multi-instrumentalista que alterna entre teclas, cordas e sons rítmicos de apoio. Todos de preto, Sharon destaca-se pelo brilho dos cabelos escuros, que rimam com o olhar perscrutante. Concentrada, começa com Jupiter 4, mimetizando a percussão com as mãos com a precisão de um maestro. Comeback Kid permite-lhe libertar alguma tensão, quer pela descarga energética do tema, quer pela reciprocidade com que o publico acompanha o refrão. Olha o espaço cheio e rendido, respira fundo, sorri, pega no microfone, e deixa-se levar por No One’s Easy To Love, deslocando-se, inspecionando os outros músicos e sentindo o alinhamento da multidão. A sua voz profunda e densa rasga a membrana térmica e reorganiza os átomos da atmosfera. Pega na guitarra para revisitar One Day e Tarifa, dois registos mais ligeiros e tradicionais. Pousa-a, e progride para o colorido harmonioso de Your Shadow, que embala os corpos hipnotizados pela potência emocional. Tira o casaco e refugia-se atrás de um pequeno teclado para tocar Malibu, aninhando-se para dar espaço à imagem mental de “just a couple of dudes on the edge of town”. Sem qualquer transição, emerge num rompante e engata na poderosíssima Hands, um hino de sensualidade táctil, em que cada verso é uma investida de amor e luxúria. Para o rescaldo socorre-se do embalo quase pueril de All I Can, que vai escalando para um registo mais dinâmico. Seventeen é uma obra prima, mas quando Sharon se agacha na berma do estrado, olhos nos olhos, “downtown harks back halfway up the street, I used to be free, I used to be seventeen” reverte a rotação do universo. Agarra o fluxo emocional da narrativa com mestria, e partilha o tema de que a sua mãe menos gosta: Every Time The Sun Comes Up. Reconcilia-se através de Stay, tocando cada nota num piano imaginário, alheia ao impacto sensitivo desse stereo virtual. Termina com o shot de adrenalina de Serpents, deixando atrás de si um rasto de quero mais. 

 

© Teresa Mesquita

Sharon Van Etten Galeria Completa

Às 20:45 o palco NOS recebe o primeiro dos 04 (quatro) concertos com que os Ornatos Violeta ressuscitam para celebrar os 20 anos da obra prima “O Monstro Precisa de Amigos”. Manuel, Peixe, Nuno, Elísio e Kinörm emergem com a informalidade de há duas décadas, e indisfarçável alegria. Sem preliminares, arrancam com o tributo a Circo de Feras que gravaram para “XX anos XX bandas”. O recinto inteiro canta em uníssono, numa dupla elegia a autores e interpretes a fervilhar num caldeirão de emoções que dispensa legendas. Prosseguem com Tanque, e nunca a afirmação “Meu mal é ver que eu vou bem” foi tão sentida ou fez tanto sentido. Fiel ao ritual do costume, Manel tira a t-shirt e a guitarra de Peixe toma conta de Pára de Olhar Para Mim – ahhh, quanta vitalidade neste tocar anterior ao acordo ortográfico. Manel enverga uma t-shirt do público e convoca Para Nunca Mais Mentir, com os uh-uh-uh-uh a serem vocal e fisicamente embalados por todo o recinto. A catarse coletiva dá-se com Ouvi Dizer: o cruzamento inter-geracional entre os que cresceram ao som dos Ornatos e os que nasceram depois da sua extinção funde-se na letra que todos cantam, uns de cor, outros de improviso, mas todos com igual vontade. Há-de Encarnar é um hino de percussão de assinatura peculiar. A melodia suaviza-se com Coisas, e a guitarra acústica marca Noticias do Fundo, num magnífico diálogo de cordas entre Manel e Peixe, de cumplicidade tão intensa que exerce um efeito magnético sobre o público. Manel atribui-lhe os créditos de Deixa Morrer, aclamando-a como um dos temas de que mais gosta. O soluçar sincopado é acompanhado por palmas que incentivam a convicção de que “estão vivos outra vez”. Segue-se a claustrofobia de Nuvem, aqueles versos que ilustram impressões tão íntimas que parece estranho alguém conseguir dizê-las. Manel despe a Takamine com os autocolantes da adolescência, e cresce para O.M.E.M., num rock animal que domestica palavras e sons, e faz descer a noite sobre a marginal, atirando-o para o chão. Reergue-se para Chaga e Dia Mau dois hinos coletivos que demonstram onde pode chegar um concerto interativo. Pára Agora é a musica que faria parte de um álbum que não chegou a ser, e a esperança de que talvez ainda seja, porque não há temporalidade no som dos Ornatos, nem prazo de validade para a energia que emana da conectividade entre eles. Capitão Romance é a rampa de saída, com o bandolim de Peixe a fazer as honras de despedida. Mas todos sabem que falta uma, o clamor é ensurdecedor e irresistível, e os quatro amigos voltam ao palco para O Fim da Canção. Despedem-se abraçados, felizes, emocionados, e com a certeza de que o seu lugar é ali mesmo – no palco principal, em horário nobre, com um recinto sedento deles.

 

© Teresa Mesquita

Ornatos Violeta Galeria Completa

Logo depois das doze badaladas, Robert Smith e a sua equipa ocuparam o palco principal, e aí assentaram durante duas horas e meia e 26 canções. O mote foi um desfile dos êxitos de mais de 40 anos de carreira de uma das bandas mais influentes da história da música. A robustez do baixo, os riffs das guitarras e o ondular dos teclados dispensam apresentações, e com mais complexidade ou mais simplicidade, o som dos The Cure é identificável às cegas e ao primeiro acorde. A postura é a de sempre: uma inamovibilidade física que dá espaço à musica para esvoaçar. O conceito gótico mantém-se na imagem, roupas e maquilhagem, mas exalam uma vitalidade que não estava presente no conceito de amargura melancólica que os celebrizou. Dir-se-ia que o tempo está uns nano-segundos mais acelerado. Este descolamento é quase impercetível, e corresponde a uma perda de lastro de soturnidade reveladora do talento e da maturidade dos artistas, que evoluíram em torno de si mesmos, recriando-se. Abrem com Shake Dog Shake, e viajam pelos templos de Fascination Street, Just Like Heaven, Pictures of You, Lovesong, One Hundred Years e tantas, tantas outras. Tudo de uma assentada, sem sinais de cansaço. Para o encore, as guloseimas: Lulluby, The Caterpillar, The Walk, Fryday I’m In Love, Close to Me, Why Can’t I Be You e o hino de encerramento Boys Don’t Cry. Uma proeza.

 

© Teresa Mesquita

The Cure Galeria Completa

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