NOS Alive 2019 | 12.07.2019 | 2º dia

I'm not excited, but should I be? Is this the fate that half of the world has planned for me?
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No segundo dia do NOS Alive’19 o recinto manteve-se desafogado e o ambiente tranquilo. O nível etário dos frequentadores é substancialmente mais baixo do que na véspera, e os grupos de jovens salpicados pelos tapetes de relva deslocam-se sem pressas, num limbo entre a descontração e a alegria. Os pontos de alimentação e bebidas escoam a procura sem aflições, e o tempo desliza ao ritmo de cada um, entre tiaras de pompons coloridas e echarpes fluorescentes.

As 18:50 horas Ry-X ocupa o palco Sagres com a guitarra a tiracolo, dois teclistas e um baterista munido de um set básico complementado com pad eletrónico. Australiano de nascença e californiano por opção, o alter ego de Ry Cuming apresenta-se de chapéu castanho a condizer com a barba, vestes soltas em linho claro e um álbum acabado de editar. Abre com o embalo suave de Shortline em voz e guitarra acústica, aqui e ali temperado por percussão e teclas, e sons eletrónicos semeados com precisão. Cria um ambiente etéreo e quase pastoral, que convida a ficar e sentar. Muda para guitarra elétrica e entrega-se a Salt, num crescendo que desagua em cascata num lago de paz. YaYaYa parte de um ritmo sincopado, e assenta na repetição mântica dos acordes bordados por loops, criando um efeito hipnótico. Sweet é aplaudido aos primeiros acordes, e releva-se no paradoxo entre a sensualidade frágil e a devoção. Pede ajuda à audiência para Howling, e vai jogando milimetricamente com o bombo, as palmas e a vocalização, criando espaços de som e silencio, e juntando mãos cheias de loops, ingredientes secretos que aceleram e desaceleram os batimentos cardíacos. Untold e The Water fecham a envolvência com a generosidade de um abraço, embalando os corpos num mesmo ondular soprado pela sequencia minimalista das melodias. Encerra com Berlin, a peça que completa um jogo de intensidades terapêuticas.

 

© Teresa Mesquita

RY-XGaleria Completa

Pelas 20:15 horas o antigo guitarrista dos The Smiths enfrenta uma multidão que a tenda é pequena para albergar. Johnny Marr enverga preto sob o seu cabelo beatleano tingido de asa de corvo com uma lista branca, e esmera-se nas poses de estrela. Acompanham-no um baterista de casaco purpurinado, um guitarrista de fato assertoado, e um baixista vestido de anonimato. Dá o mote com The Tracers, extraído do último álbum. É rock & roll à moda antiga, servido com uma tremenda mestria instrumental potenciada pela experiência de palco. Larga Bigmouth Strikes Again (The Smiths) como uma descarga elétrica que põe toda a gente a cantar e a dançar. Capitaliza o entusiasmo para o novíssimo Armatropia, em arroubos de teatralidade e energia. Dedica Hi Hello a somebody you love, e o retorno desse esse afeto é retribuído em aplausos, que se silenciam para um solo de guitarra deslizante. Troca de instrumento para recuar 30 anos e resgatar How Soon Is Now (The Smiths) com entusiasmo vigoroso. Vai às raízes da cena disco de Manchester buscar o contagiante beat de Getting Away With It (Electronic), e o coro de “i love you more than you love me” é projetado para além da foz do Tejo. Troca novamente de guitarra para a densidade de Walk Into The Sea, um registo dark wave em que o baixo ressoa nos intestinos e as teclas podiam ter sido emprestado pelos New Order. Interpreta Get The Message (Electronic) em modo de special requests, e na crista de uma onda de boa disposição. Destroca Easy Money por palmas, coros e um nunca acabar de dança. Despede-se com a intenção de voltar e There is a Light That Never Goes Out (The Smiths) é cantada num clamor anacrónico, por uma geração que talvez tenha sido concebida entre os versos “To die by your side is such a heavenly way to die”.

 

© Teresa Mesquita

Johnny MarrGaleria Completa

Às 21:0 horas o palco NOS parecia demasiado vasto para a juventude dos Greta Van Fleet. Os gémeos Josh e Jake Kiska, o irmão mais novo Sam, e o amigo Danny Vagner, poderiam ser membros da família Von Trapp com banda sonora de Led Zeppelin. O visual e maneirismos vintage são a expressão visível de um revivalismo hard rock estridente, interpretado com inegável virtuosismo. O seu álbum de estreia espelha tanto ADN da banda de Robert Plant, que suscita sérias questões sobre onde acaba a inspiração e começa o plágio. Com a determinação  de quem quer, e a confiança de quem sabe, desfiam uma dúzia de temas sem vacilar. Percorrem a estrada que liga Flower Power Highway Tune e Black Smoke Rising a Watching Over, The Cold Wind, Brave New World e Lover, Leaver. Fazem solos de guitarra acrobáticos, solos de bateria atléticos e esticam as cordas vocais até ao limite do sustentável. Uma aula de música dos anos 70. Terminam com When The Curtain Falls, atestando que o que já foi pode voltar a ser.

 

© Teresa Mesquita

Greta Van FleetGaleria Completa

Os cabeças de cartaz Vampire Weekend chegam às 23:00 horas e instalam-se sob um gigantesco planeta insuflável que reproduz a capa de “Father of The Bride”. O palco está repleto de instrumentos para todos os gostos, com especial incidência em mecanismos de percussão. Os nova iorquinos Ezra Koenig, Chris Baio e Chris Tomson sobem ao palco acompanhados por Brian Robert Jones, Greta Morgan, Garrett Ray e Will Canzoneri. Trazem uma lufada de ar fresco e revigorante, um indie pop de cara lavada, com um pé na world music e outro no afro beat. Começam em tom de brincadeira, com sequências de escalas que ganham ondulação e se convertem em White Sky. Aceleram para o corridinho de Unbeliever, seguidos por um coro imparável que grita “I’m not excited, but should I be? Is this the fate that half of the world has planned for me?”. Os ritmos tribais de Cape Kod Kwassa Kuassa são corporizados por Brian, que faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, em calções rosa e cabeleira vitoriosa. Bambina conta com a ajuda do público a marcar um ritmo de castanholas com as instruções de Greta, numa elegância estética a anos luz de distância do tecno-flamenco da moda. Sunflower é a primeira incursão no novo álbum e um divertido exercício de guitarras, brilhantemente interpretado por Ezra e Brian, e com fortes influências de outros mundos. Run é um sprint de teclas que acelera, acelera, acelera, mimetizado pelo menear de ancas de Chris. Sympathy é o autocolante e imagem de marca da banda, é Ezra a brilhar na sua zona de conforto e a despertar sorrisos do tamanho do universo: “Now we’ve got that sympathy, what I’m to you, you are to me… let’s go.” Enxertam a primeira cover da noite, imprimindo o seu balancear a New Drop, New York, e desfiam a narrativa de ritmos caribenhos de New Life, com uma expressividade quase pueril. Harmony Hall é uma incursão pela folk, e se Diane Young poderia ter saído de um álbum de Elvis, Cousins poderia ter sido concebido por Alex Turner. Repescam A-Punk, Campus e Oxford Coma com a sua leveza purificante e autêntica, e atendem um pedido de Hannah Hunt formulado por instagram. A quebra de adrenalina é aproveitada para uma homenagem a Bob Dylan, com uma sentida interpretação de Jokerman. Poderiam ter terminado neste registo de seriedade? Poder podiam, mas não era a mesma coisa.

Por isso atiram-se à cavalgada de Worship You e encerram com o belíssimo Ya Hey, ao mesmo tempo que largam dois mundos insufláveis gigantescos sobre o público. Merecem o prémio simpatia, porque a musica é para ser curtida.

 

© Teresa Mesquita

Vampire Weekend Galeria Completa

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