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NOS Primavera Sound 2019 | 07.06.2019 | 2º dia

NOS Primavera Sound 2019 | 07.06.2019 | 2º dia

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.
Don’t miss it

Reza a tradição que o segundo dia do NOS Primavera Sound é o de maior afluência, com famílias, grupos de amigos e curiosos a deslocarem-se pelo relevo à cadencia dos horários nobres. Este ano o palco secundário não é o Super Bock, mas o Seat, o que aumenta as distancias e dificulta os trajetos, em benefício da endurance e proveito dos pontos de alimentação intermédios. A meio da tarde, as crianças já correm pela relva, os carrinhos de bebé estacionam nas sombras, as venda de bebidas registam a procura de líquidos, e os malmequeres flores ornamentam as cabeças. Alguns espécimes mais exóticos destacam-se por entre os gentrificados, criando um cenário multicolor.

A Surma e os ProfJam estream os espaços mais intimistas, e Aldous Harding vem diretamente dos antípodas para o anfiteatro principal. Calças imaculadamente brancas, t.-shirt antracite, caracóis modelados sem os chapéus que elegeu como imagem de marca, e quatro músicos a assegurarem a bateria, baixo, guitarra e teclas. As suas feições angulosas realçam os trejeitos estranhos que imprime ao rosto, e parece perdida na imensidão de um universo paralelo. Senta-se numa pose estudada, com uma guitarra acústica milimetricamente assente no colo e empresta a sua voz adocicada a baladas pautadas por longos silêncios e instrumentalização ligeira.

© Teresa Mesquita

Aldous HardingGaleria Completa

Na clareira atrás das árvores, Nubya Garcia confirma o estatuto de arauta do novo jazz britânico. Atrás do saxofone, e ladeada por contrabaixo, teclas e uma bateria artilhada, corporiza todas as razões pelas quais o jazz sempre foi a musica dos grandes músicos. O efeito de estufa entre a base da secção rítmica e o metal que ressoa sobre ela aconchega-se aos recantos do corpo, produzindo uma vibração libertadora. A ondulação criativa da melodia assemelha-se a um caos dotado de vida própria, que não precisa de disciplina para fazer sentido, nem para ser sentido.

© Teresa Mesquita

Nubya GarciaGaleria Completa

No regresso à base do recinto que dá nome ao evento, o sorriso aberto de Courtney Barnett agrega a primeira enchente do dia. A versão australiana de Kurt Vile apoia-se num baixo e percussão escondidos atrás de cabeleiras frondosas. A sua figura franzina realça as exuberantes guitarras vermelhas, e toda ela é de uma simplicidade e alegria desarmantes. Canta um folk-rock franco e honesto, que desenreda estórias do dia a dia em modo de relato, intercaladas por solos de guitarra enérgicos, sempre, sempre iluminados por um brilho de satisfação. Toda a movimentação corporal irradia conforto e felicidade: as escaladas aos amplificadores, os alçares de pernas, as inclinações da coluna vertebral até ao limite do ponto de equilíbrio, os risos espontâneos. Vai dialogando com o público por entre temas recentes e antigos: Avant Gardener, Citty Looks Pretty, Small Talk, Need a Little Time (this is a love song), Nameless Faceless, I’m Not Your Mother, I’m Your Bitch, Crippling Self Doubt and a General Lack of Self Confidence, Small Puppies. Antes de Depreston faz uma pausa para contemplar o instante em que o sol se dissolve no mar “What a beautiful moment… it’s gone…” e prossegue para Elevator Operator, Everybody Here Hates You, History Eraser, Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party e Pedestrian At Best. Grande artista, grande presença de palco, grande rock.

 

© Teresa Mesquita

Courtney BarnettGaleria Completa

Contornar o reggaeton da noite requereu alguma habilidade, e encaixar os Interpol no asfalto da entrada parecia uma despromoção, mas acabou por se relevar acertivo. Os meninos bonitos do rock nova iorquino perfilaram-se no habitual alinhamento de três por quatro e, sem saírem da formação, esfolaram as guitarras certeiras beneficiando do som mais límpido de todo o recinto. São de uma eficiência infalível, da qual Paul Banks é a imagem de marca. A dinâmica rítmica contrasta com uma fleuma impassível, ninguém se mexe, ninguém sai do tom, ninguém se atropela, a musica é milimetricamente executada sem falhas. A bateria bombeia simultaneamente a música e o fluxo sanguíneo, criando um efeito tridimensional que é rematado pelas cordas. Num espaço repleto, o publico interioriza o som, refletindo a imobilidade dos artistas, numa troca de sinergias simétrica.

© Teresa Mesquita

InterpolGaleria Completa

Era uma da manhã quando a estrela do norte iluminou a noite, arrumando o dia. James Blake, londrino, 30 anos, sube ao palco NOS, e o relvado cobre-se de ouvidos atentos. Sobre o estrado, três ilhas de equipamento: violoncelo e guitarra encostados a uma parafernália eletrónica que debita fitas de telex (ticker tape), uma bateria de pads com 4 pratos acústicos, e um conjunto de teclados em L. Os dois músicos que o assistem instalam-se nos respetivos postos, e James encarrega-se dos teclados e do instrumento mais poderoso: a sua voz única, que se estende no campo minado entre o soprano e o falsete, insuflada por uma tristeza que vem do fundo do plexo solar. Entra com “Assume Form, acompanhada pelos gemidos despidos do violoncelo, e pelo refrão sussurrado entre o público. Prossegue para “Life Roud Here”, com os dedilhares da guitarra a acentuarem a sinuosidade da melodia, e a ajudarem-no a estender o tapete vocal. Atravessa “Timeless” apoiado nos sintetizadores, fazendo descer uma névoa de tranquilidade sobre a multidão, como um encantador de serpentes. Canta “Mile Hight” sobre vozes sampladas, criando um estranho efeito virtual que desperta os sentidos. Levanta-se e, com as mãos atrás das costas, numa postura de absoluta serenidade, inicia “Are You In Love?” quase a capella, com o estalar dos dedos do percussionista a marcar o tempo, abrindo as águas dos lagos, as copas das árvores e as almas dos descrentes. Transita para “Can’t Believe The Way We Flow”, imperturbável às mudanças de andamento e aos longos silêncios. Impregna “Loathe to Roam” de um dramatismo entre o mórbido e o claustrofóbico, quase insustentável, que evoca Ian Curtis na subida até à esquizofrenia, descida para loops sufocantes, e regresso aos teclados e para uma diatribe instrumental. “I’ll Come Too” fornece um plano de emergência que alivia a tensão acumulada, e que permite a “Barefoot in The Park” desencadear sorrisos. A extraordinária cover de “Limit to Your Love” (Feist) cria um momento de desapego, que se prolonga pelo ritmo rap de “Where’s the Catch”. Voyeur” e “CMYKrecuperam as sonoridades eletrónicas hipnóticas dos primeiros álbuns, fazendo o publico ondular como um campo de milho ao vento. Em “Retrograde” faz um dueto consigo próprio, cantando por cima de loops de si mesmo, como num stereo virtual. Agradece, visivelmente comovido com as reações da assistência. Anuncia que a ultima música é acerca da perda total, e alerta para a importância de cada um conseguir rever-se nela: “Don’t Miss It … like I did, like I did.”.

© Teresa Mesquita

James Blake Galeria Completa

Ana Cristina Carqueja
Ana Cristina Carqueja
Nascida a 17/08/1971 e radicada no Porto. Apreciadora de música indie nas declinações folk/rock/pop/eletrónica. Apetência pela inovação e descoberta de talentos emergentes, mantendo a fidelidade aos clássicos. Fascínio pelas multi-sensações da música ao vivo, de preferência em recintos pequenos. Repórter de texto para publicações musicais.