Os Big Thief fizeram do Hard Club o seu bunker

A banda toca para ela própria, e não para o publico, que passa por uma experiencia quase transgressora.
Share on facebook
Facebook
Share on google
Google+
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

O quarteto nova iorquino de indie folk / rock Big Thief tem tantos anos de existência quantos os álbuns editados, num frenesim de criatividade diretamente proporcional à qualidade. Adrianne Lenker é a multifacetada compositora, letrista e guitarrista que lhe empresta o rosto e dá a voz, um e outro entre picos de doçura e irreverencia, de sussurro e dor, de desafio e súplica, de despojamento e beleza, e de impossível parametrização. Buck Meek é o guitarrista com quem partilha os despojos de um casamento e uma cumplicidade palpável. Max Oleartchik e James Krivchenia seguram a secção rítmica com uma minúcia colada ao revés das cordas das guitarras. Vivem praticamente juntos, como uma família de acolhimento reciproco. Em 2019, lançaram dois álbuns complementares: “U.F.O.F.” espacial e sonhador, e “Two Hands” enraizado na crueza da terra vital. Os Big Thief estiveram no Vodafone Paredes de Coura em 2018, no NOS Primavera Sound em 2019, e regressaram a Lisboa e Porto a 17 e 18 de fevereiro de 2020 em nome próprio.

A sala 1 do Hard Club encheu-se de um público que despiu as canseiras do dia nas pedras da escadaria, e os agasalhos da noite no vestiário, para se aconchegar na magia da música.

@ Igor de Aboim

A banda sobe ao palco com o habitual paradoxo estético: Adrianne de cabelo lustroso, maquilhagem cuidada com duas delicadas linhas tribais e vestuário discreto, Buck de camisola interior e slim suit, Max de macacão grunge e peúgas enroladas, e James de camisa fluida e olhar concentrado. Formam um circulo voltado para o centro deles mesmos, e a audiência estica-se para espreitar pelo buraco da fechadura, num exercício de voyeurismo. Invade uma intimidade rara: três temas novos em formato demo, ainda em testes e evolução. “Two Rivers” é suave e imponente, “Time Escaping” é mais acelerada e comprime-nos num túnel entre as cordas e a percussão, com a voz a indicar o percurso de saida, e “Someone 2” dança em volta de um riff otimista. A banda toca para ela própria, e não para o publico, que passa por uma experiencia quase transgressora.

@ Igor de Aboim

Terminado o ensaio, Adrianne e Buck enfrentam o recinto com “Forgotten Eyes”. O inconfundível tremor no final do refrão amplifica a angustia existencial “The wound has no direction / Everybody needs a home and deserves protection.”, e a melodia progride até ser absorvida no vórtice de um solo de guitarra. “Masterpiece” é a obra prima do álbum de estreia com o mesmo nome, uma declinação folk que o uso foi tornando intuitiva, e que se estende com a generosidade de um abraço “You saw the masterpiece, she looks a lot like you”. “Shark Smile” e “Mythological Beauty” repescam o álbum “Capacity”, a primeira como um jogo do elástico que leva o som até ao limite, e a segunda uma história sussurrada entre as duas guitarras e suspensa no baixo. “Terminal Paradise” foi redesenhado para “Two Hands” e é uma prisão de claustrofobia monocórdica, cuja libertação é concedida pela voz, evoluindo para um desfecho de auto reconciliação. A sensibilidade do recinto está preparada para absorver toda a fragilidade de “The Toy”, uma balada ondulante e sofrida, à boleia da peculiar interpretação de Adrianne, entre o vibrato e o sussurro.

Um comentário à estreia do microfone headset – “How did Britney Spears do it? It hurts my skull…” – serve de introdução para “Shoulders”, uma melodia alvejada por disparos de indignação e aceitação, “And the blood of the man who killed my mother is in my veins”. Buck vacila no instrumental final, como se a miséria narrativa lhe tivesse contaminado as cordas. “Not” é aclamada por uma audiência que foi aproveitando todas as pausas para sugerir temas – “People keep gessing the next song!.”. É o grande single do mais recente álbum, e a sua natureza intervencionista é exponenciada ao vivo com o solo de guitarra a ascender aos céus para se fazer ouvir pelo criador, e cada nota a ser torturada até o som se render, exausto, na terra escura e fértil. Adrianne mune-se de uma guitarra acústica de 12 cordas, percorre a via sacra da afinação, e entrega-se ao folk subtil de “Cattails”. O final feliz é assegurado por “Mary”, com a voz quase à capella cuidadosamente colocada sobre um o andamento country minimalista, e Adrianne e Buck enredados numa dança de olhares e balanceares, sob a percussão atenta de James.

@ Igor de Aboim

O encore traz um microfone de tripé e “Contact” em extended play. A languidez e sensualidade é interrompida por um uivo de emancipação, e os instrumentos apoderam-se dele para reunir todas as emoções do serão num rebombar eletrizante e as devolver a cada um, renovadas.

Os Big Thief confirmam-se como uma banda de genuinidade desconcertante, que brilha por mérito próprio e tem o seu cenário de eleição em espaços contidos. A carga emotiva que transborda do palco faz reverb nas paredes e espalha-se sem misericórdia pela audiência. É para gente que sabe ao que vem, vem por bem, e vai melhor.

Big ThiefGaleria Completa

OUTRAS NOTÍCIAS

NOVAiDS White-01