Tindersticks dão vida à sala Suggia

“Pinky in the daylight, crimson at night, yeah, I love you”
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Os Tindersticks dispensam apresentações. O quinteto de Nottingham remonta a 1991, e mantém os fundadores Stuart Staples na voz, Dave Boulter nos teclados, Neil Fraser na guitarra, acrescentando Dan Mckinna no baixo e Earl Harvin na bateria. A banda editou em 2019 o 11º álbum de originais “No Tresure But Hope”, e veio a Portugal promove-lo, com passagem pela Casa da Musica do Porto a 22 de fevereiro de 2020.

© Bruno Pleno

A acústica da sala Suggia tem vida própria. Tal como duas testemunhas materiais de um evento, também duas pessoas que aqui assistem ao mesmo concerto não ouvem o mesmo som. A sonoridade projeta-se de forma diferente para cada lugar do recinto, e é uma incógnita o que terá chegado a cada um dos 1.000 pares de ouvidos que a encheram para assistir ao mais recente espetáculo dos Tindersticks. Mas quem teve a fortuna de receber um som limpo deleitou-se.

© Bruno Pleno

Stuart Saples apresenta-se na sua habitual simplicidade amarrotada que parece resultar da combinação improvável entre um condutor de pesados e o inspector Gadjet, no centro de um semi-circulo formado pelos restantes membros da banda, reforçada com um guitarrista adicional. Abrem quase às escuras, com a timidez vintage de “Running Wild”, a espalhar-se na pele à medida que a voz e a guitarra acústica chamam os restantes instrumentos, e eles a nutrem e lhe dão espessura. Quebrado o gelo, Staples despe a guitarra, Boulter instala-se no metalofone, as luzes aumentam e o ritmo acelera com a urgência apelativa de “The Amputees”. “Second Chance Man” reinstala a intimidade, ao mesmo tempo que prolonga a inquietação com a batida insistente da baqueta de Harvin no prato de choque. A cor aquece para aconchegar a spoken word de “How We Entered”, declamada sobre a melodia minimalista das teclas. “Medicine” viaja por um passado presente, com um duplo jogo de cordas que recheia e recobre como chocolate num bolo. “Black Night” é tomada de empréstimo a Bob Lind e a sonoridade dos anos 60 desliza, fluida, sobre o palco iluminado. O túnel de saída da analepse é no precipício de “Trees Fall”, um gemido trágico de teclados em sofrimento e enredo teatral, à maneira de Ésquilo, Sófocles ou Euripedes. O alívio é concedido por “Pinky in The Daylight”, a belíssima ode ao amor que emerge de um refrão mnemónico e mergulha no dedilhar hipnotizante de duas guitarras siamesas. Mc Kinna migra para os teclados, Boulter instala-se no sintetizador e Harvin desaparece na ondulação slow tempo de “Carousel”, com aroma a madeira esculpida e a saudade. “Willow” mantem-se sem secção rítmica, interpretada num sussurro e com o sintetizador a conferir-lhe uma sombra fantasmagórica operática.

© Bruno Pleno

Todos os músicos regressam à formação primitiva, Harvin lidera com ferrinhos, acrescenta-lhes o bombo, e “See My Girls” parte numa volta ao mundo em comboio a vapor, com a ligeira entoação country a lembrar uma banda sonora roubada a um western. “Old Man’s Gait” desenrola uma estória monocromática, mas “Tough Love” restaura o alento, com um groove contagiante de baixo e uma bateria rendilhada. Desagua em “Her”, rock & roll à moda antiga, entre um ataque de cavalaria e o advento do apocalipse, com salpicos de distorção na guitarra elétrica e a acústica a correr, atrasada para salvar a honra do convento. A temperatura da sala subiu, e o público reconhece e aplaude os primeiros acordes de “Show Me Everything” que cresce até ocupar a sala toda, para depois se desinsuflar num subtil fade out. “Another Night In” é o pastiche de chançon francaise que anuncia a despedida. E “For The Beauty” despede-se com McKinna ao piano e Staples na voz, suspensos no vácuo até os restantes instrumentos os agarrarem e colarem às paredes, trepando pela sala toda, “to feel, to live, to love, to fly”. Para o encore ficam “A Night So Still” e “Take Care In Your Drems”, que rematam com elegância.

© Bruno Pleno

Os Tindersticks habitam um registo difícil de manter, porque a assinatura vocal de Stuart Staples apropria-se do todo, mas têm conseguido inovar e superar-se, mantendo a identidade sem caírem no marasmo. Ao vivo, transportam uma carga emotiva que interage com o público sem necessidade de legendas. Não é apenas a acústica da sala Suggia que tem vida própria, os Tindersticks também a têm. Para deleite de todos os afortunados que os ouvem.

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